IA e a democratização de serviços na gestão de riqueza

Tom_Morisse
Artigo de Tom Morisse, Research Manager na FABERNOVEL INNOVATE Paris

 

Para perceber melhor o impacto da inteligência artificial nas empresas é importante escrutinar potenciais aplicações desta tecnologia. Mas analisar os seus efeitos numa escala mais ampla – num setor – é ainda mais revelador. 

Vamos mergulhar nos serviços financeiros, especificamente na gestão de riqueza. Esta escolha pode parecer surpreendente dado que este setor é conhecido por ser árido, mas é precisamente pela opacidade e pouca acessibilidade (nem todos têm poder económico para investir para além das contas poupança) que esta indústria merece ser analisada. Como iremos ver, assistimos a um processo contínuo de democratização.

Esta indústria é interessante por 2 motivos. Por um lado, as anteriores (r)evoluções tecnológicas da segunda metade do século XX tiveram impactos consideráveis e criaram um quadro de referência que permite avaliar as consequências da inteligência artificial. Por outro, a sua dimensão é significativa: em 2016, esta indústria tinha sob sua gestão, pelo menos, 160 biliões de dólares em ativos.

Mecânicas da gestão de riqueza

O principal objetivo dos produtos e serviços para a gestão de riqueza é muito simples: aumentar as poupanças ao investir em ações de empresas ou títulos de dívida de empresas ou governos – bonds. Aqui, estamos a falar de poupanças financeiras, em dinheiro vivo, e não de bens físicos (onde a categoria principal são os imóveis).

Já a implementação é muito mais complexa. Existem 3 formas para fazer a “ponte” entre o investidor e o investimento financeiro, ações ou bonds:

  • Adquirir ativos diretamente – por exemplo, comprar ações como parte de um plano de poupança (através de um corretor de bolsa).
  • Confiar num “grossista”, um gestor de ativos que seleciona os ativos num quadro de fundos, com uma determinada estratégia de investimento, e que revende parte desses fundos a investidores privados.
  • Procurar “distribuidores” que oferecem um portfólio de fundos escolhido pelos “grossistas” – por exemplo, os contratos de seguros de vida oferecem frequentemente alguns fundos extraídos por um grupo de gestores de ativos.

Ou seja, os intermediários agregam a procura por compras em “pack”, que, muitas vezes, se acumula, na perspetiva do investidor privado, e na maioria dos casos este último não gere diretamente os ativos financeiros nos quais investe.

Em termos de modelo de negócio, vários players da indústria captaram receitas geradas pelas comissões cobradas nas transações (por exemplo, taxas de compra ou venda de uma ação através de um corretor da bolsa) ou taxas de gestão (por exemplo, 1% da quantia gerida por ano no fundo de ação aleatório).

No final do dia, dentro da vasta galáxia de produtos financeiros e intermediários, quem tem maior poder económico consegue os melhores negócios, a dois níveis e ligados a economias de escala:

  • Acessibilidade: aceder a certos produtos e serviços (como por exemplo, personalização da gestão de um portfólio de ações), um nível (muito elevado) mínimo de investimento.
  • A nível de taxas: as taxas de gestão e de transações estão, maioritariamente, em declínio, dependendo do montante envolvido. Além disso, quem tem maior poder económico é geralmente menos “intermediados” e, por isso, as comissões de diferentes intermediários são menores.

Um bom exemplo é a participação num fundo de capital de risco (investimento em startups) nos Estados Unidos, onde os investidores institucionais ou milionários podem investir diretamente. Embora um empregado de classe-média possa investir, mas de forma muito indireta (e geralmente involuntariamente) através do seu fundo de pensão, que tem associado uma taxa de gestão.

Novas tecnologias e democratização

Este cenário impulsiona um movimento permanente do setor de gestão de riqueza com base num fenómeno de democratização: são as mudanças tecnológicas que, frequentemente, abrem portas a serviços que anteriormente estavam eram de luxo para massas e permitem reduzir o seu custo.

A emergência dos computadores, por exemplo, permitiu, nos anos ’70, a criação de fundos ligados a um índice, que mecanicamente replicavam os movimentos de um índice como o S&P 500 em vez de tentar “vencê-lo” através da escolha de um gestor de fundos. A descida exponencial do custo do poder computacional tornou possível acompanhar de forma mais célere os vários títulos que compõem o índice. E o impacto nos preços foi significativo: quando o Vanguard Group, um dos pioneiros nesta área, lançou o seu primeiro fundo ligado a um índice em 1976, a sua taxa anual de gestão era de 0,5%, comparada com uma média de 2%, na altura, de todos os fundos de investimento.

IBM
IBM 7090, o computador utilizado para criar os primeiros fundos ligados a um índice 

A chegada da Web a muitas casas, durante os anos ’90, deu origem à criação de brokers online muito mais baratos do que as empresas tradicionais. O acesso à informação eletrónica dos mercados bolsistas deixou de estar restrito aos investidores institucionais:  passou a ser possível comprar e vender ações facilmente a título individual. Entre meados de 1980 e 1990, a percentagem de americanos a investir diretamente em ações cresceu de 5% para 20%.

ETRADE
O E*Trade foi um pioneiro no comércio de ações online – o seu website foi lançado em 1996

Um dos pontos centrais neste fenómeno de democratização é que beneficia não só dos consumidores como também das empresas, uma vez que o atrito do valor (descida na receita por um milhão de dólares geridos) é mais do que compensado pela expansão do volume (total de ativos sob gestão).

 

Entre 2012 e 2015, por exemplo, a taxa de margem da indústria caiu de 0,8% de ativos sob gestão para 0,7% – uma mudança significativa. Mas isto não evitou que a receita geral da indústria crescesse 14%.

Quando a IA se encontra com a gestão de riqueza: 3 novas experiências

Num contexto de rápida expansão das startups fintech, surgiram, nos últimos anos, 3 novos tipos de serviços que democratizam o acesso a novos serviços de gestão de riqueza.

1 – Investimento em ideias e valores. Startups como a Motif permitem investir a título individual em questões em linha com aspirações ou interesses, tais como “combater o cancro” ou “carros conectados”, com uma grande ênfase em critérios de responsabilidade social e ambiental.
Por trás, as plataformas são responsáveis por automatizar a criação de centenas de portfólios de títulos ou ações de fundos que correspondam aos tópicos de interesse. Estes produtos estão amplamente disponíveis; uma mão-cheia de dólares é suficiente para começar a investir (é possui deter uma fração de uma ação, o que não deixa de ser uma proeza quando o preço de uma ação da Alphabet – empresa mãe da Google – excede os 1000 dólares).

Motif
Motif

2 – Robos-consultores. Esta categoria é, provavelmente, a mais conhecida, com casos bem-sucedidos como Wealthfront e Betterment nos Estados Unidos. O objetivo é oferecer uma interface com o menor número possível de iterações para o utilizador – “define, não te preocupes mais”. O investidor preenche um inquérito inicial que permite ao serviço definir um perfil de risco personalizado (em vez de relacioná-lo com alguns perfis canónicos, “moderado”, “dinâmico” e outros).
Depois, é criado um portfólio financeiro apropriado e o serviço passa a ser controlado de forma automática. Como por exemplo, fazer com que o portfólio volte à sua atribuição inicial periodicamente (uma vez que pode oscilar em função dos diferentes desempenhos de cada título) e optimização da compra e venda de títulos para minimizar os impostos pagos pelos ganhos de capital. Estes serviços estão acessíveis e são pouco dispendiosos: a Wealthfront impõe um valor mínimo de 500 dólares e taxas anuais de 0,25%.
Em 2016, os robos-consultores geriram perto de 100 mil milhões de dólares. Pode não ser um número impressionante dada a dimensão de todo o setor, mas é bastante significativo tendo em conta que esta categoria de produto tem menos de 10 anos.

Wealthfront
Wealthfront

3 – Poupanças inteligentes. Serviços como o Acorns criam fundos de poupança automaticamente. Os utilizadores só têm de conectar a aplicação à sua conta para que o serviço analise os seus hábitos e crie poupanças ao arredondar valores em compras. Estas economias são geridas com alguns portfólios adaptados ao perfil de risco do utilizador, impulsionando a mesma personalização em massa permitida pelas duas categorias anteriores.

Acorns
Acorns

 

Este leque de novos serviços pode ser representado desta forma:

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É importante não olhar para a IA em silo, como uma onda tecnológica que deriva de outras tendências. Talvez se tenha apercebido de que, neste caso concreta, as revoluções tecnológicas combinam na perfeição e trata-se de um misto entre o smartphone (a sua omnipresença e proximidade) e a IA que permite a criação de novas ofertas.

O impacto da IA no setor

Estas 3 inovações na experiência do utilizador ligadas à gestão de riqueza redefinem os limites internos e externos da indústria:

  • Os robôs-consultores permitem aos indivíduos reduzir o número de intermediários com que têm de lidar.
  • O investimento em ideias e valores pode incentivar um público mais vasto e com menos recursos económicos a fazer investimentos financeiros. Os investimentos são simplificados, graças à sua ênfase não só nos detalhes técnicos (ponto de vista do produto), mas também nas aspirações pessoais (ponto de vista do utilizador) – uma espécie de “consumerização” da gestão de riqueza.
  • As poupanças inteligentes expandem o mercado ao redirecioná-lo para os investimentos financeiros em dinheiro que de outra forma seria gasto em compras ou permaneceria nas contas atuais.

Em linha com as novas tecnologias de outros tempos, a IA irá trazer uma nova fase de democratização na gestão de riqueza e expandir o mercado através de critérios de acesso mais flexíveis e taxas mais reduzidas.

A dupla tendência que deriva da democratização – isto é, o atrito de valor e a expansão de volume – tem uma contrapartida ao nível do emprego. Os ganhos de produtividade (a necessidade de um menor número de empregados para gerir um determinado conjunto de poupanças) proporcionados pela tecnologia são mais do que compensados pela expansão do mercado.

Para onde é que os recursos inerentes ao progresso da IA podem serem redirecionados? aqui ficam 3 possibilidades de novos empregos que podem ser criados:

  • Avaliadores de valores: uma vez que investidores pretendem, cada vez mais, alinhar os seus investimentos com os seus valores, mais tempo terá de ser investido na avaliação da performance societal, ou até nos valores morais, das empresas. Este papel requer um diálogo entre todos os stakeholders e uma deslocação no terreno – aspetos que estão longe de ser automatizados.
  • Facilitadores de opções de vida: A IA aborda aspetos técnicos das finanças que consomem tempo e permite aos investidores a título individual pensar de forma mais aprofundada sobre o propósito(s) dos seus investimentos. Assim, para além de só maximizar retornos financeiros, os especialistas na gestão de riqueza podem focar-se em ajudar os seus clientes a atingir objetivos. Como por exemplo, assegurando-se que um investidor pode trabalhar em part-time sem ter dificuldades financeiras e ter mais tempo para dedicar aos seus interesses.
  • Criadores de novas classes de ativos: a indústria, num modo global, tem todo o interesse em fomentar a criação de novos produtos, novos ativos financeiros que envolvem margens mais elevadas e que estão inicialmente reservados aos clientes com maior poder económico. Isto, tal como uma passadeira rolante, constrói a primeira base para uma nova dinâmica de democratização nos próximos anos ou décadas. Novas startups oferecem, por exemplo, a possibilidade de investir em processos ou em fundos ligados a obras de arte.

A última consequência a considerar: qual poderá ser o impacto da IA e as novas experiências que tornará possível nos grandes atores do setor? A sua influência vai estar, provavelmente, limitada devido ao aspeto competitivo da gestão de riqueza: é muito mais difícil para um consumidor mudar de gestor financeiro do que optar por uma nova marca de mobiliário. Por muitas razões. A gestão das suas poupanças não é a preocupação central dos clientes, a transferência de ativos de um gestor de riqueza para outros é complicada, pode haver uma perda nos benefícios fiscais, etc.

Como resultado, a disputa por conquistar novos clientes não recai tanto no aforro. Será mais importante captar os novos fluxos, que só representam, anualmente, uma pequena percentagem, em relação ao aforro. Os players instalados têm assim bastante tempo para adotar novas tecnologias e adaptar as suas ofertas, em particular, com a aquisição de novas startups, de forma a oferecer novos produtos à sua importante clientela “cativa”.

É certo que esta transformação da indústria vai ocorrer, mas acreditamos que se vai tratar mais de um “conversa” entre players instalados do que uma substituição por novas empresas. Hoje, o “velho” player Vanguard é o robô-consultor líder, apesar de terem sido as startups quem criou este tipo de serviço.

Dito isto, cada uma das ondas tecnológicas anteriores (os primórdios da computação e o advento da Internet) permitiram a algumas empresas inovadoras chegar ao topo da indústria. Podemos apostar que desta vez também não será diferente e que, em 2025, a IA vai permitir a uma nova empresa juntar-se ao top 10 de gestores de ativos no mundo.