E se fosse possível escrever uma mensagem que os humanos conseguem ler, mas que a inteligência artificial não consegue interpretar? Foi esta a ideia da Ghost Font, uma experiência criada pelo designer e cientista informático Eric Lu que explora uma diferença curiosa entre a perceção humana e a visão computacional.
Em entrevista à Forbes, Lu explica que a ideia surgiu depois de trocar mensagens privadas com a mãe e perceber que a AI estava a tentar resumir a conversa, nem sempre corretamente, Lu começou a questionar se seria possível criar uma forma de comunicação que privilegiasse a leitura humana.
Apesar do nome, a Ghost Font não é uma tipografia tradicional, não existe um ficheiro .ttf ou .otf para instalar no computador. Em vez disso, esta fonte transforma uma mensagem num pequeno vídeo composto por milhares de pontos em movimento, quando o vídeo está parado, vemos apenas ruído. 👇🏼
Quando está em reprodução, as letras surgem diante dos nossos olhos. E poderá ler “SuperToast”👇🏼
O cérebro humano junta elementos que se movem na mesma direção e os interpreta como um único objeto, identificando o “destino comum”, um princípio da psicologia da Gestalt, o mesmo princípio que faz com que o nosso cérebro veja um leopardo a mover-se no meio da vegetação – mesmo que esteja supostamente camuflado. O cérebro agrupa elementos que se deslocam de forma idêntica revelando o texto real instantaneamente.
O segredo está no movimento, esta tipografia apenas funciona porque o cérebro humano é extraordinariamente eficaz a reconhecer padrões em movimento. Os pontos que formam as letras deslocam-se de forma coordenada, permitindo que o nosso sistema visual os agrupe e reconheça como caracteres. Para determinados sistemas de inteligência artificial, o processo é diferente, um vídeo pode ser analisado como uma sequência de imagens individuais, os típicos frames.
Para experimentar escrever a sua mensagem siga este link 👉🏼 https://www.mixfont.com/ghost-font?utm_source=chatgpt.com
Esta ideia de mensagens “codificadas” não é de hoje, em 2013, o designer Sang Mun criou a ZXX, uma tipografia que utilizava ruído e distorção visual para dificultar o reconhecimento automático de texto, mantendo-o legível para os humanos.
Mas mais de uma década depois, a evolução da inteligência artificial tornou este tipo de proteção estática muito menos eficaz.
Agora, este fenómeno da Ghost Font de Lu rapidamente viralizou nas redes sociais com um post no X a alcançar os 17,8 milhões de visualizações e despertou a curiosidade precisamente por parecer criar uma pequena vantagem dos humanos sobre as máquinas.
Mas essa vantagem parece não ser permanente. Alguns utilizadores começaram a descobrir formas de orientar os modelos de AI para analisar o movimento e reconstruir a mensagem. Uma das mais interessantes partiu de Riley Goodside, antigo engenheiro de prompting da Google DeepMind. Em vez de alterar o vídeo ou desenvolver uma ferramenta específica para analisar a fonte, Goodside deu ao modelo GPT-5.6 Sol uma informação muito simples: indicou-lhe a direção em que o ruído parecia estar a mover-se, com essa pista, o modelo conseguiu identificar a mensagem escondida.
O episódio é revelador porque não significa necessariamente que a Ghost Font tenha “falhado”. E de certa forma, cumpriu o objetivo de dificultar a leitura automática sem que a AI recebesse instruções humanas específicas sobre como decifrar.
É precisamente essa diferença que torna o episódio com Goodside tão interessante. A AI não encontrou simplesmente a mensagem escondida; alguém teve primeiro de lhe dar a chave para saber onde procurar. E essa chave pode ser temporária.
O próprio Eric Lu nunca apresentou a Ghost Font como uma solução de segurança definitiva. É apenas uma exploração, uma força motriz futura para explorar os limites atuais da inteligência artificial ao mesmo tempo que os modelos aceleram na compreensão do vídeo, do movimento e das relações entre diferentes frames. Técnicas como a Ghost Font podem deixar de representar um obstáculo significativo.
Num mundo onde a inteligência artificial está cada vez mais presente nos nossos emails, documentos, pesquisas e conversas, talvez a questão já não seja apenas “o que consegue a AI ler?”, mas também “o que queremos que leia?” É esta reflexão que torna a Ghost Font particularmente interessante, mais do que uma fonte, é uma experiência sobre perceção, privacidade e os limites da tecnologia.
Subscreva o podcast Supertoast.ai 100% gerado por Inteligência artificial
George Lucas, cineasta, argumentista e produtor norte-americano
Google transforma a pesquisa em assistente de viagens | Bluesky deixa utilizadores travarem a distribuição…
A startup portuguesa Acubic está a apostar na inteligência artificial para tornar a gestão de…
Google apresenta novo Gemini Flash | Oura prepara entrada em bolsa
O resumo da semana do SuperToast, 100% gerado por AI.
Pokémon Sleep chega ao Fitbit Air | Waymo prepara chegada à Alemanha