Estudo Tesla Roadster
O Tesla Roadster deu um “kickflip” em palco e o mundo inteiro viu. Em cinco dias, a exposição mediática valeu cerca de 1,17 mil milhões de dólares. Mas um estudo da Instinct mostra porque é que tanta atenção não muda a decisão de quem compra.
Há momentos em que a tecnologia parece cinema. A 15 de outubro, nas instalações da SpaceX em McGregor, no Texas, a Tesla apresentou a versão de produção do novo Roadster. O carro acelerou dos 0 aos 100 km/h em 0,84 segundos, com a ajuda de propulsores de gás frio, uma tecnologia que vem da indústria aeroespacial. E para terminar, deu um salto acrobático, o “kickflip”.
A internet respondeu com uma frase que resume o momento: “We got flying cars before GTA 6.” Ou seja: os carros voadores chegaram antes do videojogo mais esperado da década.
Até a FAA, o regulador da aviação civil dos EUA, sentiu necessidade de esclarecer que o Roadster “não cumpre a definição de aeronave” — ou seja, não precisa de ser certificado para voar. A notícia foi avançada pelo Politico e replicada pela Fortune. O esclarecimento deu à história uma segunda vida nos media.
A parte mais divertida aconteceu no X. Yann LeCun, vencedor do Prémio Turing e um dos “padrinhos” da inteligência artificial, fez as contas em público. Mesmo que metade do peso do carro fosse ar comprimido, haveria menos de 10 segundos de impulso útil — provavelmente uns cinco. Conclusão dele: o carro teria de ser “uma carcaça leve e vazia, cheia de tanques de ar comprimido”.
A resposta de Elon Musk veio diretamente de Monty Python e o Cálice Sagrado:
@ylecun I fart in your general direction 💨
— Elon Musk (@elonmusk) October 18, 2026
Sem argumentos técnicos, mas com milhões de visualizações. E com um detalhe curioso: os engenheiros da Tesla já tinham dito ao Top Gear que cada carga dos tanques dá para cerca de cinco segundos — precisamente o número de LeCun. A troca de mensagens foi contada pela EVXL, Futurism e Times of India.
Na prática, até o ceticismo trabalhou para a Tesla: cada crítica foi mais um episódio da mesma série.
Na Instinct quisémos responder a esta pergunta. E o nosso estudo calculou o Earned Media Value (EMV) do lançamento. Traduzindo: quanto teria custado comprar, em publicidade, a mesma exposição que a Tesla conseguiu com artigos, notícias de TV, podcasts, memes nas redes sociais, etc.
A resposta: cerca de 1,17 mil milhões de dólares em apenas cinco dias.
| Entre 15 e 20 de outubro | Estimativa |
|---|---|
| Valor mediático gerado (EMV) | ≈ 1,17 mil milhões de dólares |
| Presenças em noticiários de TV | ≈ 14,7 mil |
| Artigos de imprensa | ≈ 36 mil |
| Visualizações de vídeo | ≈ 5 mil milhões |
| Impressões nas redes sociais | ≈ 14 mil milhões |
| Visualizações das 10 publicações de maior alcance | ≈ 270 milhões |
Para termos uma noção de escala: um anúncio de 30 segundos no Super Bowl custa entre 8 e 10 milhões de dólares. O valor da visibilidade do evento do Tesla Roadster equivaleu a cerca de 145 desses anúncios (em cinco dias).
Outro dado que identificámos foi que os canais da Tesla e de Elon Musk somaram cerca de 140 milhões de visualizações — menos de 3% do total. Ou seja, quase toda a visibilidade foi criado por terceiros: televisões, jornais, criadores de conteúdo e milhões de pessoas a partilhar memes. Na prática, o mundo fez a campanha pela Tesla.
Aqui o estudo muda de tom. A atenção foi enorme, mas a decisão de compra seguiu outro caminho.
O Roadster reforça a imagem da Tesla como marca de inovação, engenharia e futuro. Mas não convence quem está a pensar comprar um Model 3 ou um Model Y, os modelos que sustentam as vendas da marca. O estudo classifica o efeito na conversão como “neutro a ligeiramente negativo”.
Na hora de decidir, os compradores olham para questões práticas: garantia e durabilidade da bateria, peças e tempos de reparação, estabilidade de preços, valor de revenda e carregamento. A aceleração — precisamente o que o Roadster leva ao extremo — foi o único fator considerado irrelevante.
As vozes do painel do estudo dizem-no melhor:
“A emoção de ver o Roadster dura cinco minutos; a folha de cálculo acompanha-me vários anos.” — Elena, México
“O Roadster é muito cool, mas não paga a minha mensalidade.” — Chen, China
O ponto é simples: o espetáculo cria desejo, mas não responde às perguntas que fecham uma compra.
A duração do entusiasmo depende do mercado e, sobretudo, da concorrência local.
Na China, onde a BYD e a Xiaomi são referência na inovação automóvel, o hype dura cerca de 72 horas. Nos EUA, a Rivian e a Lucid também encurtam o efeito. Na Europa, o serviço pesa mais do que o espetáculo.
Já na Índia e no México, onde há menos concorrência premium, o “efeito halo” pode durar meses. O estudo chama-lhe “taxa de mitologia”: a ideia de que a Tesla “detém o futuro” ajuda a manter preços premium sem publicidade tradicional.
E os clientes fiéis? Esses leem o Roadster como prova de engenharia. Mas também deixam um aviso:
“Quero a audácia do Roadster, mas exijo que a Tesla entregue o básico com a mesma obsessão.” — Jordan, EUA
Há uma segunda história por trás desta. O estudo foi feito com recurso a plataformas de inteligência artificial, com revisão e edição da equipa da Instinct, seguindo as metodologias de estudos de mercado que a consultora aplica há 14 anos.
O método junta duas camadas. A primeira mede a atenção com dados públicos: contagens de visualizações, cobertura editorial e o preço de cada canal — um spot de TV, um artigo patrocinado, o custo por visualização nas redes sociais. A segunda explora a decisão de compra com personas criadas por AI: com base em entrevistas individuais e um focus group com participantes de diferentes mercados.
O Roadster prova que uma marca pode comprar a atenção do mundo com um salto de 60 segundos. A confiança, essa, constrói-se devagar: com serviço, garantias e preços ajustados aos mercados.
A lição não é só para a Tesla. Qualquer empresa que lance um produto-estrela corre o mesmo risco: confundir notoriedade com preferência.
Em resumo: ser falado não é o mesmo que ser escolhido.
Video de resumo do estudo:
Veja a apresentação do Tesla Roadster:
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