Startup.com: Subir rápido e cair a pique 🎢
Entre 1995 e 2000, viveu-se o boom das “.com”, um período de grande euforia à volta das empresas ligadas ao universo digital. Com a internet a tornar-se rapidamente acessível ao público e ao mercado, surgiu a convicção generalizada de que qualquer empresa ligada ao mundo digital estava destinada ao sucesso. Bastava uma boa ideia digital para atrair milhões em investimento, mesmo sem lucros ou modelos de negócio claros. A expectativa de crescimento era tão alta que muitas startups dispararam em valor sem bases sólidas. Quando a realidade não acompanhou o entusiasmo, a bolha rebentou, e milhares de empresas colapsaram quase de um dia para o outro.
O documentário acompanha a história da govWorks.com, uma startup criada no final dos anos 90 com a ambição de simplificar a forma como os cidadãos interagiam com o Estado através da internet. A ideia era promissora: permitir que os cidadãos tratassem de burocracias e pagamentos ao Estado através de uma plataforma online. Em pouco tempo, os fundadores conseguiram angariar mais de 60 milhões de dólares em investimento, montaram uma equipa ambiciosa e mergulharam de cabeça no sonho digital.
A narrativa, no entanto, vai muito além da dimensão empresarial. O que realmente se destaca é o retrato cru da relação entre os dois fundadores: Kaleil Isaza Tuzman e Tom Herman, amigos de infância que se veem, progressivamente, em lados opostos. À medida que a pressão aumenta e os obstáculos se multiplicam, a amizade começa a desmoronar, posta à prova pelas exigências de liderar, decidir e gerir expectativas. O sonho partilhado transforma-se num campo de tensão constante, e a queda da empresa é também a queda de uma relação pessoal.

Assistir a Startup.com hoje é quase como olhar para um espelho: a tecnologia evoluiu, mas no ecossistema de startups mantém-se o normal ambiente de euforia, investimento rápido e cultura de crescimento acelerado continua bem presente. Os dilemas mantêm-se: como equilibrar ambição e humanidade? Como liderar sem se perder pelo caminho e manter uma relação de confiança quando tudo está em constante mudança?
O documentário impressiona pela ausência de filtros: não há narração, nem entrevistas formais, apenas a realidade a acontecer, captada em tempo real. É esse realismo que o torna tão poderoso. Porque, no fundo, Startup.com não é apenas sobre uma empresa falhada, é sobre o que significa construir algo com outra pessoa. É sobre vulnerabilidade, ego, frustração, paixão.
Num mundo onde inovar parece ser sinónimo de velocidade, este documentário convida a parar e refletir. As ideias raramente falham por falta de visão, mas muitas vezes por falta de estrutura, importância de saber ouvir ou alinhamento das equipas. E essa é, talvez, a lição mais valiosa que este documentário ainda nos pode oferecer.