Gestão da mudança na Era Digital

Hoje em dia, praticamente todos os negócios são digitais.

A digitalização foi e ainda é, para algumas organizações, o maior desafio do ponto de vista de gestão da mudança. Umas foram pioneiras, outras apanharam o “comboio” e outras resistiram até não poder mais (e que não podem). Mas todas acabarão por render-se ao chip, base de dados, comércio electrónico e à publicidade online.

A digitalização abriu novos horizontes, mas também mudou muitos paradigmas dos modelos de negócio em praticamente todas as indústrias. Das mais pequenas às maiores empresas, a obrigatoriedade de uma redefinição dos modelos económicos e de gestão, revelou-se mesmo um factor determinante para os bons resultados.
Veja-se o caso da gigantesca Kodak, que teve de abandonar o modelo que seguia há anos, para se adaptar à fotografia digital.

Kodak “Winds Of Change”

Mas se para a indústria da fotografia esta mudança já está numa fase avançada, na indústria dos Media ainda está no início, e enfrenta o receio da “canibalização”, o que na minha opinião é infundado.
Acredito que não há que ter receios, pois os Media tradicionais são os que têm mais capacidade e potencial para vencer.
Por um lado, a Internet abriu o apetite para o consumo de conteúdos nos mais variados targets e o mercado passou a ser o Mundo.

O que diferencia os projectos globais, é o facto de querem ser cada vez mais locais. É neste ponto que incide a oportunidade dos Media tradicionais, pois os conteúdos de proximidade e o idioma são inequivocamente factores-chave de diferenciação, e já levaram muitos players internacionais a “traduzirem-se”, a adaptar os seus serviços às necessidades de cada país e a acrescentar valor com conteúdos locais.

A adaptação a esta nova realidade quer-se rápida, numa altura em que não param de surgir players nascidos com DNA digital, com modelos dinâmicos de gestão e com capacidade de mudança permanente.

Porque é que o YouTube ou a Last.FM não foram criadas por uma estação de TV ou de Rádio? Simplesmente porque nenhum dos meios tradicionais tinha percepcionado o meio digital com este potencial. Muitos disseram “não acredito na Internet”, quando na realidade não era uma questão de fé, mas sim de visão.

Muitos por inércia, por falta de skills nas suas equipas, ou pelo medo de “canibalização” ficaram criativamente “cegos” na utilização destas novas plataformas.

Esta mudança na adaptação aos novos paradigmas ainda está bem no início, e quando o digo refiro-me concretamente, neste contexto, à boa gestão da multiplicidade de dispositivos onde os conteúdos podem ser consultados e à forma como são disponibilizados aos consumidores. Parece simples, mas é tudo menos isso.

É precisamente a abordagem “simplista” que condena muitos à partida.

 Veja-se o caso da Rádio, que é na minha opinião o meio que tem o DNA mais próximo da Internet, pelo seu poder de síntese na forma comunicar, imediatismo e interactividade com o ouvinte onde o telefone é desde sempre o principal canal usado para que os ouvintes sejam geradores de conteúdos.

Isto reitera o conceito UGC (User Generated Content), que não é novo e nem sequer foi criado pela Internet, esta apenas o “baptizou”.

Os maiores sucessos da História da Rádio foram, exactamente, os programas que promoviam a interactividade e a criação de conteúdos pelos ouvintes, como por exemplo: “Quando o Telefone Toca”, “Passageiro da Noite” e ainda hoje o “Fórum TSF”.

Recordo-me que nos meus tempos de liceu deixava programas como o TNT (Todos No Top) e Rock em Stock a gravar para uma cassete enquanto ia para as aulas.  Hoje em dia, subscrevo podcasts. Afinal as coisas que tanto mudaram, se calhar, não mudaram assim tanto…

O que mudou de facto, foram as possibilidades tecnológicas.  Hoje, temos acesso permanente aos conteúdos no PC, PDA, PSP, iPhone, BlackBerry, Kindle, Revo

A indústria da distribuição também sofre do mesmo receio da “canibalização”, continuando a alimentar a “guerra” dos formatos – DVD, HD DVD (que entretanto já “morreu”) e BluRay – quando já se sente que o que vai prevalecer são os downloads e os streaming.

Quem percebeu claramente esta tendência foi a Apple, ignorando todas as críticas à AppleTV relativamente á “falta de um leitor de DVD”, quando há muito já se tinha posicionado no mercado da distribuição digital com o iTunes.

Nesta nova realidade de globalização e digitalização, seja qual for a indústria, acredito que é matematicamente certo que vencerão os players que tiverem a maior capacidade de adaptação e rapidez de implementação de novas formas de gestão, tal como  Darwin postulou de forma semelhante, noutro contexto, em certa altura – a sobrevivência dos mais aptos, nem sempre os mais fortes, mas sempre os mais adaptativos.

E se este movimento nas organizações é importante, não é menos relevante para a competitividade das Nações que está cada vez mais dependente da “digitalização” das suas indústrias, e mais ainda agora, em tempo de psicose de crise, em que a questão da sobrevivência, é de facto, uma questão…

 

Artigo publicado no jornal Meios & Publicidade de 12/12/2008 e revista Comunicações nº 192 da APDC – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações.

Tagged with: