Quando é que a China vai conquistar o mundo?

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Artigo de Julien Breitfeld, Data Architect Director na FABERNOVEL INNOVATE

 

Partindo do provérbio chinês “falando, durante a noite, com um sábio, beneficiamos mais do que estudando durante 10 anos”, viajámos até à China para ver com os nossos próprios olhos a revolução que está a acontecer neste “planeta”. Neste dossier, vai encontrar as análises e pontos de vista da equipa da FABERNOVEL sobre este novo mercado de inovação fascinante.

Claro que o que contamos sobre a nossa Learning Expedition é só uma parte: não vimos nada da China, como não vimos nada de Xangai, a cidade onde estão sediados os escritórios da FABERNOVEL na Ásia.

Contudo, temos permanentemente partilhado com os nossos novos colegas as experiências que tivemos no local e os encontros com startups, investidores, gestores de co-working, incubadoras, estudantes, investigadores, colaboradores, chineses, expatriados. De tudo, há uma evidência: o século XXI será chinês, como o XIX foi europeu e os XX foi americano.

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Da The Economist, que destaca Xi Jinping na sua edição de 14 de outubro com o título “O homem mais poderoso do mundo”, à Time, que na capa de 14 de novembro escreveu “A China venceu”, fica evidente que o contexto geopolítico mudou drasticamente em menos de 20 anos. Dois séculos foi o tempo necessário para que este país membro dos BRIC passasse de uma economia “emergente” para um novo líder mundial.

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O que é flagrante quando falamos da China são os números. Claro que, com uma população de 1,3 mil milhões de habitantes e um território com 9,5 milhões de km², a escala – tão apreciada pelas startups – é óbvia. Mas no seu percurso de desenvolvimento, tudo é gigantesco: é a nº1 em crescimento, destronando os EUA em termos de Rendimento Nacional Bruto e na ajuda a países em vias de desenvolvimento; bem como líder na produção de energia solar e em número de milionários (2 mil pessoas possuem hoje uma riqueza equivalente à economia britânica).

Contudo, a China ainda é comunista, e não no sentido em que os ocidentais o entendem. A China não é uma democracia, no sentido que os ocidentais a entendem. É um planeta próprio dentro do planeta, com o seu idioma (indecifrável para uma boa parte da sua população. Se o chinês comum vive uma vida normal utilizando 3 mil caracteres chineses, um académico pode dominar 20 mil), os seus códigos e cultura, impermeáveis às culturas ocidentais, porque, desde logo, não se baseiam em religiões reveladas.

No XIX Congresso do Partido Comunista da China ocorreu a coroação de Xi Jinping, reeleito por 5 anos na direção do partido, como Secretário de Estado. O novo mestre do mundo iniciou, inteligentemente, reformas estruturais, com o objetivo de travar os seus oponentes e apaziguar o resto do mundo. E é particularmente nas gerações mais novas, chinesas e ocidentais, que a mudança se faz sentir. Um estudo do centro de investigação Pew sobre a percepção da China como uma potência mundial mostrou que as pessoas que a veem como tal têm entre 18-29 anos.

A infraestrutura: A chave da hegemonia mundial

A China, ao contrário dos Estados Unidos, implementa-se internacionalmente à sua maneira: não está oficialmente na corrida pelo império, mas possui uma estratégia em paralelo. A sua hegemonia passa pela construção de pontes entre a Ásia e o Ocidente através do projeto faraónico “One Belt One Road” (ver documentário na ArteTV). A ideia é construir duas rotas entre dois continentes: uma rota terrestre, incluindo ferroviária, e uma rota marítima, com um investimento anunciado de 1 bilião de dólares.

O objetivo é desenvolver o acesso ao mundo e à sua economia ao simplificar e racionalizar a infraestrutura.

A infraestrutura é a chave. Quando olhamos para a sua eterna rival Índia, é ao nível da infraestrutura que está a diferença. Estamos a falar de uma infraestrutura que encontramos do outro lado do Atlântico, onde é este controlo que faz o sucesso de empresas como a Amazon, Google ou Facebook.

O domínio da infraestrutura resulta da dimensão do país em si: não gere só populações, mas também stocks e fluxos. O que pensar de um país que na “Super Gold Week” (um período de férias em outubro) registou deslocações de 700 milhões de pessoas?

Este controlo da infraestrutura tem efeitos também no sistema de informação chinês. Desde cedo, o governo decidiu que os gigantes norte-americanos de telecomunicações ou de informática não eram bem-vindos. Desde as versões locais do Windows à Great Firewall da China, as autoridades fecharam as TIC em seu benefício: policamente, obviamente, mas também a nível económico.

GAFA vs DUMITA?

Através da sua genialidade em copiar, e, hoje, em inovar, os chineses colocaram no caminho dos GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon) sérios concorrentes:

A Tencent, que detém o “Facebook” chinês, com 800 milhões de membros,  e que inspirou a gigante norte-americana no princípio de oferta de dinheiro (os famosos “Red Envelopes”)

A Alibaba, a única possível rival da Amazon e cuja valorização cresceu 250 mil milhões de dólares num ano, captou 75% do mercado de e-commerce chinês e decidiu investir 15 mil milhões em Investigação & Desenvolvimento nos Estados Unidos.

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Ou a Baidu, em tempos apelidada de “Google” chinesa graças aos serviços copiados que oferecia, que está a apostar em veículos autónomos e recentemente lançou uma plataforma Open Source, Apollo.

E os anúncios de novas empresas sucedem-se, pressupondo que a China destronará a indústria norte-americana de robótica e pressupondo que vai ultrapassar a de Inteligência Artificial (a China é a nação que mais investe em IA e o governo fez desta uma prioridade nacional).

Dado que os empreendedores chineses perceberam rapidamente e adotaram o princípio das plataformas, como vimos acima, a China é também uma plataforma. Da sua economia não revela muito, excepto que todas as suas empresas beneficiam de investimentos “governamentais”, salvaguardados por um nacionalismo e protecionismo destas jóias em relação às outras empresas do resto do mundo.

Cada um dos seus cidadãos é um potencial embaixador da infraestrutura: para captar o consumidor em solo francês, por exemplo, a Printemps adotou o Alipay, o sistema de pagamentos da Alibaba, concorrente da Visa/Mastercard. Também o QR code, que não vingou no Ocidente, está a ser democratizado através da implementação de frotas de bicicletas “sem docas” nas ruas de Washington ou de Paris.

Numa altura em que apenas 6% dos cidadãos chineses possuem passaporte, captar esta audiência ao transportar o seu mundo, a sua cultura e as suas utilizações para o nosso mundo é um desafio colossal: 135 milhões de deslocações ao estrangeiro foram feitas em 2016; espera-se que 200 milhões de chineses visitem os nossos territórios nos próximos anos, e são muitos os choques culturais…

Não é, por isso, adequado contrapor os GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon) aos DUMITA (BaiDU, XiaoMI, Tencent e Alibaba): a China é um GAFA só por si, uma vez que junta política e economia, controla o seu território e a sua influência e compreendeu que a infraestrutura é uma ferramenta que está encarregada de controlar.

Conquistar o futuro

Como o Financial Times sugere, referindo-se a Xi Jinping como um Leninista autocrata, as raízes da vitória chinesa sobre o Oeste podem ser encontradas na própria economia ocidental:

Second and far more important, the West (fragile as it is today) has to recognize — and learn from — the fact that management of its economy and politics has been unsatisfactory for years, if not decades. The west let its financial system run aground in a huge financial crisis. It has persistently under-invested in its future. In important cases, notably the US, it has allowed a yawning gulf to emerge between economic winners and the losers. Not least, it has let lies and hatred consume its politics.”

Pouco antes da eleição de Donald Trump, um diplomata chinês disse:

A China precisa de desempenhar o papel de líder e depois deve assumir essa responsabilidade

Em prenúncio do fim do império americano, a China despertou, nas palavras de Alain Peyrefitte, e estará em vias de “conquistar o futuro”, de acordo com o editorial da Time. Contudo, a história é feita de acidentes e surpresas e nada é garantido. Veremos, surpreendentemente, o surgimento da Arábia Saudita com um projeto faraónico?

Uma coisa é certa: enquanto os EUA luta com os seus gigantes GAFA, que debilitam a sua estrutura e ao mesmo tempo a alimentam, a China confunde-se com a sua infraestrutura e avança, inexoravelmente.

De tudo o que nós vimos na China, vamos tentar descrever o melhor possível o seu funcionamento de forma a trazer uma percepção construtiva sobre este mundo de possibilidades que nos são trazidas. Construtiva, mas também crítica e valorizando o melhor possível os interesses das partes, porque, no seguimento do que diz o Financial Times, o Oeste tem muito a aprender.

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