Tim Guilliams (Healx): “Queremos transformar a descoberta de tratamentos para doenças raras”

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A Healx utiliza inteligência artificial para encontrar tratamentos para 7 mil doenças raras, “5 vezes mais rápido e 50 vezes mais barato” do que no processo de descoberta de medicamentos tradicional.

A empresa foi fundada, em 2014, no Reino Unido, por Tim Guilliams, Andreas Bender, David Cavalla e David Brown, o cientista que descobriu o tratamento para a disfunção erétil Viagra.

Durante a Web Summit, entrevistámos Tim Guilliams, um dos fundadores e CEO da Healx, que explicou como é que a startup centrou o seu negócio num nicho de mercado negligenciado pelas farmacêuticas.

Como é que a Healx está a transformar o modelo tradicional de descoberta e desenvolvimento de novos medicamentos?

Nós utilizamos inteligência artificial e machine learning para encontrar medicamentos existentes que podem ser utilizados para doenças raras, mas que ainda não têm tratamentos aprovados, e também para encontrar combinações. Fazêmo-lo em muito menos tempo e com menor custo.

Como é que funcionam os algoritmos?

Nós temos uma abordagem que chamamos de “hypothesis -free” (livre de pressupostos). No modelo tradicional de descoberta de medicamentos, que custa 2 ou 3 mil milhões de dólares por medicamento, existe uma taxa de insucesso de 95% porque começa pelo pressuposto errado. Tipicamente, seleciona-se um alvo para o medicamento e depois otimiza-se esse medicamento. O que nós fazemos é “hypothesis -free”, não manipulamos o pressuposto, deixamos os algoritmos escolher a doença rara e quando sabemos que funciona voltamos a trabalhar de volta no mecanismo. É muito diferente.

Com que rapidez e preço? 

O processo de descoberta de medicamentos tradicional leva em média 12 a 15 anos, nós acreditamos que conseguimos entre 3 a 5 anos, ou seja, cerca de 5 vezes mais rápido. Em termos de custos, tendo em conta que tipicamente há um custo de 2 ou 3 mil milhões de dólares por medicamento, conseguimos fazê-lo 50 vezes mais barato.

Quais são as principais fontes dos dados analisados pelos vossos algoritmos?

Temos 2 fontes de dados. A primeira é a evidência e a literatura sobre medicamentos, doenças ou pacientes em hospitais, através de registos de saúde eletrónicos, experiências científicas e patentes. Depois construímos um gráfico de conhecimento à volta daquilo que é uma base de dados de relações e com o conhecimento sobre estas relações prevemos novas relações. O gráfico de conhecimento é a tecnologia que a Google utiliza na pesquisa, que permite que a resposta a uma pergunta apareça logo nos três primeiros resultados. Nós desenvolvemos um gráfico de conhecimento biomédico sobre doenças raras que quando perguntamos “qual é o melhor medicamento para esta doença?” obtemos previsões surpreendentemente boas.

A segunda fonte são dados de ómica, ou seja, o genoma, transcriptoma, proteoma, metaboloma, etc. Estamos a falar de biologia.

Construímos modelos únicos com base em dados de multi-ómica, percebemos a doença e tentamos juntar medicamentos que revertam a assinatura da doença para um perfil saudável.

É um mix de dados públicos e privados…

Sim, dados públicos, semi-públicos e privados que nós próprios geramos.

Quais foram os vossos maiores progressos até este momento? Já disponibilizam novos tratamentos para doenças raras?

Sim, temos tido um sucesso notável. Lançámos 10 programas até agora e todos eles resultaram, o que para a nossa indústria é muito elevado. Agora, estamos a fazer os primeiros ensaios clínicos. A fase pré-clinica correu bastante bem e acreditamos que vai acontecer o mesmo com os ensaios clínicos que esperamos começar no início do próximo ano.

Captámos investimento de série B pouco depois da série A. Este ano captámos um investimento de 66 milhões de dólares e estamos verdadeiramente a crescer e isso é muito entusiasmante.

Onde é que os fundos vão ser investidos?

É importante dizer que os nossos principais investidores investem em empresas tecnológicas. Temos como investidores a Balderton Capital e a Atomico, que veem que há uma clara oportunidade da “AI for good” e da utilização da inteligência artificial na transformação da descoberta de medicamentos.

Vamos utilizar os fundos para lançar 14 programas novos para doenças raras. Os nossos custos são bastante baixos porque tudo é feito virtualmente, fazemos outsourcing dos ensaios e etc. Estes fundos vão ser para lançar ensaios clínicos e programas pré-clínicos.

Pode dar alguns exemplos das doenças raras de que estamos a falar?

Ótima questão. O Síndrome do X-Frágil é uma doença neurológica rara que afeta cerca de 1 em cada 6 mil pessoas, que se caracteriza pelo autismo e sintomas comportamentais. Em 18 meses, conseguimos identificar novos tratamentos que já validámos e estamos preparados para avançar para os ensaios clínicos a uma fração do custo. Não podemos dizer quanto. Os ensaios vão começar no início do próximo ano, normalmente demora-se entre 5 a 7 anos a chegar a esta fase, nós conseguimos fazê-lo em 18 meses. É bastante entusiasmante.

As parcerias estão no centro do vosso negócio. Pode dar alguns exemplos de parcerias que fizeram para licenciar os tratamentos?

Para nós, os principais parceiros são os grupos de pacientes e a família porque são os especialistas. Em todos os projetos, trabalhamos com o grupo de pacientes porque eles sabem tudo sobre a sua doença. Portanto, estas são as parcerias que procuramos e que fazemos.

Parte dos fundos que captámos vai ser utilizada para o lançamento global do Rare Treatment Accelerator, através do qual qualquer grupo de pacientes com uma doença rara se pode candidatar e, se for aceite, comprometemo-nos a encontrar um tratamento. Nos ensaios clínicos também fazemos parcerias com empresas de biotecnologia e farmacêuticas.

Como é que trabalham com as empresas de biotecnologia e farmacêuticas?

Temos algumas parcerias, mas não vendemos a nossa tecnologia, não pretendemos ser uma empresa de serviços. Queremos desenvolver tratamentos e é isso que nos entusiasma. Temos o nosso próprio pipeline de tratamentos que desenvolvemos.

Todas as semanas, recebemos ofertas para comprar a nossa tecnologia e aceder à plataforma, mas esse não é o nosso modelo de negócio. Apesar disso, as parcerias são importantes.

Qual o modelo de negócio?

É muito simples. Do lado da própria tecnologia em si não rentabilizamos, queremos desenvolver os nossos próprios tratamentos e lançá-los no mercado, esse é o nosso objetivo a longo prazo. Pretendemos lançar 100 programas, em 2025.

O modelo de negócio é encontrar tratamentos a preços acessíveis que os pacientes possam pagar e que os sistemas de saúde possam reembolsar, porque um dos grandes problemas na esfera das doenças raras são os custos elevados.

Estão a posicionar-se mais como um concorrente das farmacêuticas…

Digamos que estamos focados num nicho diferente. A maioria das empresas farmacêuticas não está interessada nas doenças raras porque o mercado é demasiado pequeno. Para nós, é um nicho negligenciado e é por isso que 95% das doenças raras não têm tratamentos, hoje em dia. É um problema enorme no qual estamos focados.

Qual é a valorização da Healx?

Não podemos revelar publicamente.

Qual é a vossa visão a longo prazo?

A visão a longo prazo é lançar 100 programas nos próximos 5 anos para ter os nossos próprios tratamentos e depois disso fazer muito mais. Basicamente encontrar um modelo de negócio na indústria farmacêutica em que podemos desenvolver tratamentos muito mais baratos e muito mais rápido, sem necessidade de cobrar quantias astronómicas aos pacientes e famílias. Acreditamos que o modelo de negócio atual não é sustentável.

O medicamento mais caro para doenças raras tem um custo de 4 milhões de dólares por paciente, por ano. Existe uma solução, mas depois os sistemas de saúde reembolsam porque é demasiado caro e o paciente e a família não tem capacidade financeira para pagar.

Acreditamos que há uma oportunidade nos medicamentos existentes em que podemos maximizar o seu valor em vez de desenvolver novos tratamentos extremamente caros que vão demorar 15 anos e têm custos astronómicos.

Qual a dimensão deste mercado de tecnologia aplicada à saúde? 

É enorme, mais de 220 mil milhões de dólares. É o mercado que está em crescimento mais rápido na indústria farmacêutica. E se pensarmos na medicina personalizada, o que fazemos está na linha da frente porque as doenças raras têm um perfil genético muito claro que permite saber exatamente qual é a biologia da doença e fazer um match com grande precisão do medicamento certo. Basicamente, esta é uma forma inicial de medicina personalizada.

O modelo em que existem medicamentos de grande consumo que geram milhares de milhões vai acabar. Acreditamos que o mercado do futuro será ainda maior do que o atual.

Como é que descreve o modelo de futuro?

Será em direção à medicina personalizada onde não desenvolvemos um novo medicamento para cada doença, mas olhamos para todos os medicamentos existentes e os utilizamos para prever e fazer o match com o paciente certo. Esse é o futuro da medicina.

Qual o papel que a inteligência artificial vai ter para responder aos principais desafios da medicina?

Enorme. Eu penso que já está a acontecer, já estamos a inovar. O desafio é que os reguladores precisam de acompanhar o ritmo. Os pacientes estão a tornar-se mais autónomos, o que é fantástico, e o papel dos médicos está a diminuir. Para nós, cada programa em que trabalhamos com os grupos de pacientes permite-nos perceber aquilo que realmente os preocupa.

Penso que as visitas aos hospitais também vão diminuir, os pacientes vão poder ficar em casa com a familia e encontrar o tratamento certo mais rápido. Acho que isto é fantástico, só tem vantagens para os pacientes, é o verdadeiro AI for good.

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