Yuya Nakamura (Axelspace): “A nossa constelação de mini-satélites pode ajudar vários negócios”

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A Axelspace é uma startup japonesa que está a criar uma constelação de mini-satélites para recolher dados de observação de todo o planeta que podem transformar a agricultura, o planeamento urbano e permitir uma intervenção mais rápida em caso de desastres naturais.

A startup já captou um total de 45 milhões de dólares e no seu grupo de investidores inclui a empresa de capital de risco japonesa Global Brain e também a Mitsui Fudosan, uma das maiores empresas de imobiliário do Japão.

Nesta conversa, durante a Web Summit, Yuya Nakamura, fundador e CEO da Axelspace, revela que já foi lançado o primeiro satélite e os planos para entrar em novos mercados, sobretudo em países em desenvolvimento.

Como é que nasceu a Axelspace?

Quando era estudante universitário estava envolvido num projeto de desenvolvimento de nano-satélites, onde desenvolvi o primeiro CubeSat, um pequeno satélite, com 1kg, que cabia na palma da mão. Foi este projeto que esteve na origem da criação da nossa empresa. Queríamos continuar a desenvolver este tipo de satélites de pequena dimensão e não havia nenhuma empresa neste negócio.

O que é que distingue a Axelspace? A OneWeb, por exemplo, também está a criar uma constelação de mini-satélites… 

O que a OneWeb está a tentar fazer é diferente porque estão a criar uma constelação para comunicações. Nós estamos focados na observação e monitorização do planeta. Além disso, a OneWeb não desenvolve os próprios satélites, fazem outsourcing da construção com a Airbus.

Nós somos uma empresa integrada verticalmente, fazemos tudo, o design, o fabrico e a operação, e esse é o valor das nossas imagens de satélites. Esta é a grande diferença. Além disso, amadurecemos a nossa tecnologia desde os tempos da universidade. Temos as nossas próprias APIs e tecnologias que nos permitem diferenciar de outras startups e grandes empresas.

Quais foram as maiores conquistas até agora na criação da constelação AxelGlobe?

Lançámos o primeiro satélite em dezembro [de 2018] e começamos a recolher dados em junho [2019]. Estamos a angariar clientes de todo o mundo, no Ruanda, na Indonésia, em Taiwan, na Noruega e noutras partes do mundo. Ainda estamos no início porque ainda só temos um satélite em órbita, mas já temos confirmado o lançamento de mais 4 satélites no próximo ano. Teremos um total de 5 satélites, que nos vão permitir monitorizar diariamente áreas específicas  e de estarmos muito perto de completar a constelação AxelGlobe.

Diria que a nossa maior conquista até agora foi termos lançado o primeiro satélite e termos ganho vários contratos, mas ainda é só uma fase inicial.

Qual será a dimensão da constelação AxelGlobe?

O número exato ainda não foi definido. O objetivo é que sejam 50 satélites, mas mesmo com menos podemos responder às necessidades dos nossos clientes. Esperamos ter entre 10 a 20 satélites em órbita em 2022.

Que dados estão a recolher?

Em termos gerais, são imagens, como as captadas por uma câmara digital, mas também captamos dados adicionais que são úteis para monitorizar a vegetação. Podemos recolher dados sobre o crescimento de plantações e sobre as florestas e também dados que podem ser úteis para o planeamento urbano, monitorização de ativos e criação de mapas.

A vossa tecnologia pode criar oportunidades de negócio para diferentes empresas?

Acredito que sim, estamos a tentar criar uma plataforma através da qual os nossos parceiros podem criar as suas próprias aplicações utilizando os nossos dados de imagens de satélite.

Pode dar alguns exemplos?

Penso que a agricultura é um bom exemplo. Podemos acompanhar o crescimento das plantações diariamente e estimar quando será a melhor altura para a colheita e que partes do terrenos necessitam de ser fertilizadas. Pretendemos fazer parceiras com empresas de tecnologia aplicada à agricultura que fornecem estes serviços aos agricultores.

Planeiam trabalhar também com entidades públicas? 

Sim, no setor público existem muitas aplicações possíveis, particularmente em países em desenvolvimento. O potencial é enorme, por exemplo, no planeamento urbano para identificar a melhor localização para um hospital ou uma escola.

Outro exemplo são desastres naturais. No caso de um terramoto, é mais fácil identificar as áreas afetadas e enviar equipas de socorro.

Quais têm sido os maiores desafios?

As imagens de satélite ainda não são muito utilizadas, por isso, o maior desafio é criar aplicações que sirvam de exemplo e que ajudem as empresas a perceber como é que podem utilizar imagens de satélite. Somos uma plataforma e queremos que utilizem os nossos dados, mas antes temos de criar as nossas próprias aplicações.

Já criaram algumas aplicações?

Estão em desenvolvimento, estamos em conversações com potenciais clientes, no Ruanda e na Indonésia. Estamos a ajudá-los a perceber como é que podem, efetivamente, extrair informação dos dados que recolhemos. Ao trabalharmos em conjunto, podemos criar aplicações que podem servir também para outras áreas.

Planeiam captar mais fundos?

Sim, até agora, captámos cerca de 45 milhões de dólares (série A e B). Já assegurámos investimento para cumprir o objetivo de ter 5 satélites em órbita no próximo ano, mas precisamos de mais satélites para completar a constelação AxelGlobe. Gostaríamos de captar mais capital (série C) no próximo ano, para completarmos a constelação em 2022.

Quem são os principais investidores?

O principal investidor é uma empresa de capital de risco japonesa chamada Global Brain e temos também a Mitsui Fudosan, uma das maiores empresas de imobiliário do Japão como investidor.

Qual é a valorização da empresa?

É de cerca de 100 milhões de dólares.

Em quantos países estão a operar?

Atualmente, apenas no Japão, mas pretendemos entrar em novas áreas porque vamos tendo cada vez mais clientes e sentimos a necessidade de ter representantes em diferentes partes do mundo.

Quais são os principais alvos desta expansão?

Sobretudo, países em desenvolvimento em África, Sudeste Asiático e América do Sul.

Qual é a vossa estratégia a longo prazo?

Depois de completarmos a [constelação] AxelGlobe 1.0, queremos criar a AxelGlobe 2.0, uma constelação de próxima geração com maiores capacidades, como mais sensores para captar dados térmicos, por exemplo, e imagens em alta resolução. Um novo tipo de dados para ir ao encontro das necessidades dos nossos clientes.

Estes satélites vão poder fornecer um serviço de internet também?

Não é o nosso principal objetivo, porque estamos focados em dados de observação da Terra, contudo podemos vir a oferecer algumas funcionalidades de comunicação de banda estreita, como um serviço secundário.

Temos dois verticais de negócio: um é o AxelGlobe e o outro são satélites privados, em que já desenvolvemos 4 satélites para clientes específicos, incluindo a JAXA, a Agência de Exploração Espacial Japonesa.

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