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Vision Pro: Os óculos que vão substituir todos os ecrãs?!

A Apple acabou de lançar os Apple Vision Pro, apenas disponíveis nos Estados Unidos, para já. Ainda pode ser difícil projetar o valor de utilidade deste novo dispositivo no futuro, mas analisando tem todos os “ingredientes” para ser o início de uma convergência que nos próximos anos pode substituir televisores, computadores, tablets e smartphones.

Mais uma vez, a Apple não foi a primeira empresa a lançar óculos de realidade virtual e realidade mista, mas, mais uma vez, entra no mercado de forma única, disruptiva, inovadora e com design que transforma a tecnologia numa peça de arte com uma simbiose única entre hardware, software, ecossistema de aplicações e serviços.

Em 2007, a Apple removeu o teclado e as canetas dos smartphones com o iPhone. Em 2016, removeu os fios dos auriculares com os AirPods. Em 2024, remove o toque com os Vision Pro, passando o controlo de navegação, e de toda a experiência de utilização, para a voz e simples gestos, como no filme Minority Report. Sempre que avança nas suas soluções, são removidos ainda mais atritos para uma experiência cada vez mais natural e instintiva, e por isso mais inclusiva, sobretudo para crianças e seniores que têm maior dificuldade em utilizar comandos. Como refere a Apple num dos vídeos promocionais: “Act on Instinct” 🙂.

Mais uma vez também, a Apple impõe um novo standard, ignorando nomenclaturas como realidade virtual, realidade mista ou metaverso, definindo esta nova categoria de produto de Spatial Computing (computação espacial).

O principal “obstáculo” ao sucesso, que tem sido referido por muitos analistas, é o preço de 3.500 dólares. E, sim, claro que não é um preço acessível a todos, mas nos 8 mil milhões de habitantes do planeta, muitos milhões vão comprar e naturalmente o preço irá baixar com o tempo. Certamente novos modelos vão surgir, possivelmente sem a versão Pro e com um preço acessível a mais milhões de clientes. Quando surgiu o iPhone também muitos consideraram-no demasiado caro, e afirmavam que “ninguém ia comprar”, como referiu na altura o ex-CEO da Microsoft, Steve Ballmer.


E a história repete-se. Desta vez foi Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que não resistiu a fazer a análise comparativa com os seus Meta Quest 3, desprezando os Apple Vision Pro. Sinceramente, não havia necessidade porque os Meta Quest por 500 dólares vão continuar a vender e os Vision Pro por 3.500 dólares só contribuem para abrir mercado.

A Apple sempre se posicionou em qualidade e preço. Agora, não é exceção. Os consumidores fazem contas que, por vezes, os CEO ou analistas não conseguem fazer, como o iPhone ser mais barato (e conveniente) do que comprar um telemóvel e uma câmara fotográfica.

Não tarda, muitos consumidores vão somar o valor de uma Smart TV e um computador e comparar com a experiência dos Vision Pro para tomar a decisão de compra. Como dizia Steve Jobs, no mercado B2C (business to consumer), os consumidores elegem os produtos com a carteira, no mercado B2B (business to business) há outras variáveis menos racionais, e isso explica também porque a Apple tem uma natural preferência pelo mercado B2C.

A esta distância, os Vision Pro podem ser a explicação para a Apple nunca ter lançado o televisor, que Walter Isaacson referiu na biografia oficial de Steve Jobs.
Para quê lançar um televisor quando se está a trabalhar num potencial substituto?!

Como referi no início, os Vision Pro são o início de uma nova categoria de produto. E como vai evoluir esta categoria?

A própria Apple responde a esta pergunta no filme de ficção científica “O Canto do Cisne”, um original da AppleTV+ (um excelente filme, com Glenn Close, Mahershala Ali e Naomie Harris), onde não há smartphones, televisores ou computadores. São substituídos por lentes de contacto e pequenos auriculares.

É certo que temos pela frente uma enorme transformação com a computação espacial, com impacto em todos os negócios, mas em particular e, mais uma vez, acredito que a primeira a ser impactada vai ser a indústria de media e entretenimento, pois, seja qual for o dispositivo, o conteúdo continuará a ser rei.


*Artigo publicado no +M do jornal ECO

Nuno Ribeiro

Managing Partner da agência de inovação Instinct. Foi Portugal General Manager da agência de inovação FABERNOVEL (2012 a 2022), diretor da unidade de negócio multimédia do grupo Global Media (2008 a 2012), diretor da unidade de negócios de Internet do grupo Cofina Media (1999 a 2008) e consultor do secretário de Estado da Comunicação Social para a área digital (1997 a 2002). Em paralelo com a atividade profissional foi docente, coordenador de programas executivos e pós-graduações nas Universidades: Católica-Lisbon, Europeia, ISEG e Lusófona (2001 a 2016). Colaborou com artigos de opinião e comentador, sobre temas de inovação, transformação digital e nova economia nos media: Visão, Diário de Notícias, Meios & Publicidade e Económico TV. 
Autor do livro Gerir na Era Digital (2011). É licenciado em Economia pela Católica-Lisbon, onde também concluiu o curso avançado Gestão de empresas tecnológicas e uma pós-graduação em Media e Entretenimento.

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