A Sword Health não é apenas mais uma empresa de tecnologia. É o unicórnio português que, através da Inteligência Artificial, está a mostrar que é possível tratar a dor física e obter cuidados de saúde em várias áreas com sucesso e de forma totalmente remota. Criada em 2015, a empresa usa a tecnologia para tratar condições físicas – e, agora, mentais -, permitindo que os doentes recuperem em casa. Hoje, a empresa já vale mais de 4 mil milhões de dólares e Virgílio Bento, um dos seus fundadores, é reconhecido como um dos 100 protagonistas mais influentes na saúde global, fazendo a diferença nos centros de decisão mundiais.
Natural da Guarda, onde diz que a liberdade na infância lhe induziu a curiosidade que lhe permite hoje criar soluções, Virgílio Bento, ou “Gi Tó”, como também é chamado, estudou e doutorou-se em Engenharia Eletrotécnica em Aveiro, mas foi o Porto que o conquistou e onde decidiu “assentar arraiais”. É precisamente nesta cidade que está estabelecida a sede da empresa. “Todo o nosso sucesso vai depender da capacidade de criar e, para criar, preciso de me sentir feliz e de me sentir em casa. Portugal foi onde sempre me senti em casa. Quando estou nos Estados Unidos há sempre um vazio, e quando não estou feliz, sou inútil”.
Ao longo da entrevista, num registo intimista, de pés descalços, calças de ganga e t-shirt, o empreendedor marcou a sua autenticidade, sem desvalorizar a importância dos maiores empreendedores do nosso país. “Vejo grandes empresários portugueses como uma grande inspiração para mim, mas eu sou eu. Quero replicar a ambição deles mas não vou vestir-me como eles. Gosto de ser igual a mim mesmo”.
A motivação para unir tecnologia e saúde começou de forma muito pessoal. Há 30 anos, o irmão de Virgílio sofreu um acidente grave e ficou em coma. “Percebi a dificuldade que os meus pais tiveram para trazer o meu irmão de volta à vida. E percebi que não devia ser tão difícil para uma família e para uma sociedade trazer as pessoas de volta à vida. Aconteceu com o meu irmão mas passados 30 anos continua a acontecer com toda a gente que tenta aceder à saúde”.
Para o empreendedor, a transição para a AI é inevitável, mas o ritmo depende também da vontade política. “Eu acho que demora muito mais tempo do que as pessoas pensam, essa adoção total de uma nova tecnologia. Vimos isso com a internet. Com a AI vai acontecer o mesmo. Mas uma coisa é certa: se não houver um desígnio nacional para se adotar AI e mudar a forma como se fazem as coisas, em vez de demorarmos 5 anos vamos demorar 30”. Ao mesmo tempo, lamenta que a Europa não esteja a acompanhar os EUA e a China, mas mantém o otimismo. “A única tecnologia comparável com AI não é a internet, é a eletricidade. A AI marca exatamente um momento de mudança em que vai haver um mundo com AI e o mundo sem AI”.
Mais do que substituir humanos, Virgílio vê a AI como uma ferramenta de proximidade. “A nossa existência humana vai mudar porque vamos poder ter o melhor cardiologista do mundo no nosso telemóvel”. Sobre o receio da desumanização, o engenheiro acha que o humano vai ter sempre um papel, porque o toque humano, por exemplo na área da saúde, é muito importante. “Acho que a AI escala o toque humano, e torna-o mais acessível, até paradoxalmente (…) porque o que faz é que trata das tarefas mundanas e permite ao clínico focar-se mais na componente humana, algo que não consegue agora porque está exausto com as componentes burocráticas da saúde”.
Atualmente, a Sword Health atua em várias frentes além da inicial (relacionada com a dor física): saúde feminina, condições cardiometabólicas, saúde mental e mais recentemente na área da triagem na saúde.
Nem tudo foi um caminho de rosas. Em Portugal, as portas fecharam-se sucessivamente. “O ecossistema de investimento era muitíssimo limitado, ainda é agora. Era um setor quase inexistente e ninguém queria investir em nós”.
Houve um momento crítico em que a conta bancária da Sword chegou quase a zero e esse extrato está simbolicamente emoldurado na sede da empresa. Virgílio arriscou tudo num e-mail enviado às 23h para Vinod Khosla, um dos maiores investidores de Silicon Valley. A resposta chegou duas horas depois e o investimento concretizou-se em três semanas.
Hoje, a Sword Health é uma prova de que, com talento português, é possível chegar à primeira linha mundial: a empresa gere soluções de saúde na Grécia, Alemanha e Estados Unidos. Mas em solo luso, o progresso é lento. “Em dois, três anos, eu conseguia resolver 50% dos problemas do SNS com tecnologia”, afirma com convicção. No entanto, aponta a falta de coragem política: “Quem lidera, muitas vezes, ou tem as mãos atadas ou não tem coragem suficiente para mudar as coisas como têm de ser mudadas e por isso é que estamos neste estado crónico em que as coisas se mantêm”.
Defensor da meritocracia norte-americana, Virgílio aplica-a na sua empresa: todos os funcionários recebem ações e, à medida que vão prosseguindo na carreira, vão recebendo mais ações. “Orgulho-me muito quando vejo que muitos funcionários pagaram o empréstimo da casa através do seu trabalho”.
A Sword Health está, neste momento, a fechar grandes negócios com empresas na Europa nos Estados Unidos, o que vai catapultar a empresa para lá dos 4 mil milhões de dólares atuais. Mas Virgílio Bento diz estar já a “pensar no próximo problema” para resolver. “Nunca vimos a valorização como um objetivo. Sabemos que queremos trabalhar a Sword para os próximos 50 anos, temos uma visão muito a longo prazo”.
O empreendedor afirma que, aos 90 anos, espera olhar para trás e ver que parte da existência humana mudou por sua causa. Para já, continua focado no próximo desafio, porque, como diz, profissionalmente, a dimensão da sua felicidade está indexada à qualidade de problemas que está a resolver. “Quanto maior o problema e mais ambicioso, mais feliz eu sou”.
Pode ver a entrevista completa aqui.
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