Ensino: A primeira geração graduada com AI
A chegada do ChatGPT transformou rapidamente a vida universitária e aumentou os incentivos à batota, à fraude e ao “atalho” como estratégia de sucesso. Este é o sentimento deixado por Theo Baker, um estudante finalista da universidade de Stanford, num artigo de opinião escrito para o New York Times.
A utilização é massiva. Theo Baker não tem dúvidas: todos foram muito rápidos a utilizar. Uma velocidade de adoção do lado dos alunos que destoa da velocidade das universidades em adaptarem-se ao fim do monopólio da inteligência pelos humanos.
A batota normalizada e omnipresente
“Não conheço uma única pessoa que não tenha utilizado a inteligência artificial para se safar numa trabalho na universidade”. Theo Baker explica que “os sistemas de incentivos não favorecem a honestidade”. Por isso, a inteligência artificial passou a ser usada para “desenrascar” trabalhos e para estudar. Theo conta que no início havia alguma reserva, mas hoje já todos o fazem com “pouca vergonha social associada”.
O que se tornou rapidamente normal para os alunos, ainda parece ser um problema para algumas universidades. Pedir aos estudantes para assinar uma declaração a dizer “Não usei o ChatGPT”, o regresso a provas em papel ou a nova a política de vigilância dos exames (que entrou em vigor apenas em abril de 2026) são medidas de controlo da universidade de Stanford, mais do que medidas de adaptação a um novo e irreversível contexto.
Educação vs. fazer dinheiro
Quando chegou à universidade, há quarto anos “um diploma (em Stanford) parecia ser um passaporte para um emprego bem pago, mas agora, a porta fechou-se brutalmente”. E com esta alteração de contexto, muitos alunos estão fisicamente nas aulas, mas mentalmente a desenvolver modelos de negócios para criarem o seu próprio emprego.
“As máquinas tornaram-se tão melhores em programação que os engenheiros juniores já não conseguem realmente competir com elas” e o emprego deixou de estar garantido. Theo Baker explica que aprender deixou de ser o principal objetivo dos estudantes de Stanford, “a educação pode ser vista como um objetivo secundário”.
O objetivo passou a ser lançar uma empresa com “AI” no nome. As chamadas startups “wrapper” ou “de embalagem” que não têm AI proprietária e se limitam a reembalar modelos existentes de uma forma diferente, como é o caso da Perplexity que nasceu há menos de 4 anos (agosto 2022).
Um dos episódios que conta é a visita a Stanford de Jensen Huang, o fundador da Nvidia que foi recebido como uma super estrela por estudantes desesperados por obter o autógrafo.
A grande mudança cultural
Relatos como o de Theo Baker deixam bem claro que AI não é “tecnologia” é um produto do quotidiano que influencia não só o estudo, as relações, a comunicação e a forma como as pessoas pensam e decidem.
Deixo duas questões para reflexão. A primeira é, como num ecossistema universitário altamente competitivo, se deve reconfigurar a integridade académica, os métodos de avaliação, a motivação para aprender e a ansiedade sobre o valor do diploma? A segunda, como as empresas podem continuar a integrar jovens no mercado de trabalho?

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