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O golo mais bonito que nunca vimos (e como a AI está a devolver-nos pedaços perdidos da História)

Durante mais de 60 anos, o momento mais extraordinário da carreira de Pelé existiu apenas na memória de quem estava presente no Estádio da Rua Javari, em São Paulo, Brasil. Não havia imagens, nem gravações, nem qualquer registo televisivo. Apenas relatos, recortes de jornais e uma fotografia. Era uma daquelas histórias que pareciam condenadas a desaparecer com o tempo.

Hoje, graças à inteligência artificial, podemos finalmente “ver” esse momento.

É essa a premissa de “The Most Beautiful Goal Never Seen”, um mini-documentário produzido pela Google DeepMind, em parceria com a Pelé Brand, plataforma responsável por preservar e gerir o legado de Pelé, sob liderança da NR Sports.

Este vídeo não representa apenas um exercício tecnológico: é um projeto de preservação cultural que mostra como a AI pode devolver vida a acontecimentos históricos que nunca chegaram a ser captados por uma câmara.

O golo que se tornou uma lenda

O dia é 2 de agosto de 1959. Pelé tem apenas 18 anos. Santos defronta o Juventus da Mooca, no Estádio Conde Rodolfo Crespi, mais conhecido como Rua Javari.

Nesse jogo, o jovem brasileiro marca aquele que viria a descrever repetidamente como o melhor golo da sua carreira. “Se ele falou que era o mais bonito não dá para discordar dele, né?”, diz Neymar.

A jogada tornou-se lendária pela sua simplicidade e genialidade. Pelé recebeu a bola, fez um chapéu ao primeiro defesa, um segundo chapéu ao adversário seguinte, ainda outro, levantou novamente a bola por cima do guarda-redes e, antes que esta tocasse no relvado, cabeceou para a baliza deserta. Três chapéus consecutivos, sem que a bola tocasse no chão, para depois marcar de cabeça.

Mas ninguém filmou o lance. Na época, o futebol brasileiro ainda não tinha cobertura televisiva regular e o jogo nunca foi registado em vídeo. Durante décadas, o “Golo da Rua Javari” viveu apenas através dos testemunhos dos adeptos, jornalistas e do próprio Pelé.

“A única coisa que se tem é uma foto justamente do momento que o Pelé cabeceia. O resto tem a descrição, e é tudo imaginação”, refere Paulo Monteiro, diretor do Museu Pelé, em Santos, no Brasil.

Como se recria um momento que nunca existiu em vídeo?

É aqui que entra a tecnologia. A equipa da Google DeepMind não pediu simplesmente à AI para “inventar” um golo.

O processo começou como uma investigação histórica. O projeto reuniu historiadores, jornalistas desportivos, familiares de Pelé, testemunhas oculares e antigas lendas do futebol para reconstruir o lance da forma mais fiel possível. Entre os responsáveis pelo projeto destacam-se Anita Lucchesi, historiadora da UERJ e da Arka, e Gabe Ferreira, Creative Lead da Google. Ambos explicam no documentário como centenas de documentos, mapas, fotografias, plantas do estádio, recortes de jornais e relatos orais foram cruzados para chegar à reconstrução final.

A equipa também gravou imagens reais no Estádio da Rua Javari, utilizando bolas de couro idênticas às da época, equipamentos historicamente corretos e um duplo para reproduzir os movimentos. Só depois esses planos foram processados através dos modelos generativos da Google DeepMind, incluindo o Veo, o Gemini Omni e o Nano Banana Pro, que reconstruíram digitalmente Pelé, o estádio de 1959, os jogadores, os adeptos e toda a atmosfera daquele dia.

“Ser fiel à época é importante, porque os pequenos detalhes fazem a diferença, ao recriar uma coisa tão especial”, diz Daniel Castro Chin, Software Engineer da Google DeepMind. “Reconstruir um momento da história do Pelé é uma grande responsabilidade”, afirma, por seu lado, Gabe Ferreira, Creative Lead da Google. “Queremos contar a história tentando respeitar e honrar o legado dele”.

O resultado não pretende enganar ninguém. Nunca esconde que estamos perante uma reconstrução. Pelo contrário: mostra todo o processo de investigação e explica claramente onde termina o arquivo histórico e começa a inteligência artificial.

É precisamente essa transparência que faz deste projeto um dos exemplos mais interessantes da utilização da AI em património cultural.

“Poder reviver esse golo com toda essa tecnologia, é sensacional, exatamente para gerações futuras, para que não se esqueça, não se pode esquecer”, afirma Flávia Kurtz, filha de Pelé.

A AI não está apenas a criar, está a recuperar memória

Grande parte da conversa sobre inteligência artificial gira em torno da criação de imagens, vídeos ou música inédita. Mas este documentário aponta para uma direção diferente. E se a AI servir para recuperar aquilo que julgávamos perdido?

“As ferramentas de AI amplificam a nossa imaginação. Isso permite-nos realmente explorar e experimentar de uma forma que simplesmente nunca foi possível antes. É muito importante sermos responsáveis e, através das nossas ações, definirmos o padrão de qualidade”, assegura Tom Murray, Research Engineer da Google DeepMind.

Ao cruzar fontes históricas, testemunhos e documentação, torna-se possível reconstruir momentos que nunca foram filmados ou cujas imagens desapareceram. É fácil imaginar outras aplicações.

Como seria assistir à construção das pirâmides do Egito baseada em evidência arqueológica? Ou caminhar pelas ruas de Lisboa antes do terramoto de 1755? Ou reviver episódios marcantes da exploração espacial, grandes descobertas científicas ou momentos decisivos da História portuguesa para os quais nunca existiram imagens?

Naturalmente, esta tecnologia também levanta desafios importantes. A linha entre reconstrução histórica e ficção pode tornar-se ténue se não existir contexto ou transparência. Mas quando o objetivo é preservar memória, e quando o público sabe exatamente o que está a ver, a inteligência artificial pode tornar-se uma das ferramentas mais poderosas de divulgação histórica alguma vez criadas.

Da Rua Javari para a Sphere

Talvez a melhor imagem para simbolizar esta ideia tenha acontecido longe do Brasil. A reconstrução do golo foi projetada na Sphere, em Las Vegas, o espaço de entretenimento imersivo com um ecrã LED de 16K que se tornou um dos maiores ícones tecnológicos do mundo. Ver um momento que nunca foi filmado ocupar uma das maiores superfícies de projeção do planeta é um contraste extraordinário: uma memória que existiu apenas na imaginação de quem a viveu passa agora a ser partilhada por milhares de pessoas através da mais avançada tecnologia visual disponível.

No fundo, “The Most Beautiful Goal Never Seen” não é apenas um filme sobre futebol. É uma demonstração de que a inteligência artificial pode fazer muito mais do que criar o novo: pode devolver-nos aquilo que a História nunca conseguiu guardar.

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Sara Santos

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