Skip links
PUBLICIDADE
diogo barardo site

Diogo Barardo: “Não há atalhos farmacológicos para o envelhecimento, só ciência paciente”

Durante décadas, envelhecer foi visto como uma inevitabilidade sobre a qual pouco havia a fazer. Hoje, graças aos avanços da biologia molecular, da inteligência artificial e da análise de grandes volumes de dados, a longevidade tornou-se uma das áreas mais promissoras da ciência.

Mas entre descobertas verdadeiramente revolucionárias e promessas demasiado boas para serem verdade, onde termina a evidência científica e começa o marketing?

Há poucos investigadores portugueses a trabalhar na interseção entre inteligência artificial e ciência da longevidade como Diogo Barardo. Especializado em biogerontologia, ganhou reconhecimento internacional com a criação da base de dados DrugAge, um projeto pioneiro que utiliza algoritmos de Machine Learning para identificar compostos com potencial para desacelerar o envelhecimento.

Nesta conversa, o investigador desmonta uma ideia comum sobre a inteligência artificial: nem sempre o seu papel é descobrir algo completamente novo. Muitas vezes, o verdadeiro avanço está na capacidade de encontrar ligações que sempre existiram, mas que ninguém tinha conseguido identificar. “A descoberta mais surpreendente não foi um composto novo, foi uma categoria inteira de soluções que estava à vista de todos, mas dividida por silos”, explica Diogo Barardo.

Foi precisamente isso que aconteceu com a DrugAge. Em vez de olhar para um medicamento apenas pela doença para a qual foi desenvolvido, os algoritmos analisaram padrões biológicos e moleculares, identificando ligações inesperadas entre fármacos já aprovados e mecanismos associados ao envelhecimento. Esta abordagem abriu caminho ao chamado drug repurposing, estratégia que procura dar uma nova utilização a medicamentos já existentes, o que permitiu acelerar significativamente o processo de investigação.

Diogo Barardo desconstrói também algumas perceções que ganharam popularidade nos últimos anos, sobretudo num mercado onde a palavra “longevidade” passou rapidamente a ser um argumento de venda. O maior desafio de transformar ciência em produtos acessíveis, defende o investigador, não está na investigação: “O problema nunca foi a ciência. Foi a paciência, e a falta de barreiras para quem não a tem.” Uma das maiores fragilidades da indústria dos suplementos, afirma, é que investir em investigação séria é caro e demorado, ao mesmo tempo que investir em campanhas de marketing pode gerar resultados muito mais rápidos. O resultado é um mercado onde, muitas vezes, os consumidores têm dificuldade em distinguir produtos verdadeiramente sustentados por evidência científica de promessas bem construídas.

O investigador olha também com cautela para a crescente oferta de clínicas de longevidade. Embora reconheça o interesse crescente por esta área, considera que muitas das soluções atualmente disponíveis ainda não assentam em bases científicas sólidas. Como afirma, “não existe evidência clínica robusta que sustente a maioria dos protocolos atualmente oferecidos. A boa ciência atrai sempre imitações bem vestidas”, defende.

Um dos estudos mais citados de Diogo Barardo demonstrou uma redução média de oito anos na idade biológica dos participantes através de uma formulação específica. Mas o investigador recusa apresentá-lo como uma fórmula para rejuvenescer e prefere explicar exatamente o que estes resultados significam, e quais são os seus limites. “O efeito deu-se ao nível celular, não à superfície”, explica. Segundo o investigador, o que foi observado foi uma alteração mensurável no epigenoma, ou seja, no sistema de marcações químicas que regula a atividade dos genes. Ainda assim, refere que a ciência continua a investigar até que ponto estas alterações se traduzem, na prática, em mais anos de vida saudável ou numa redução efetiva do risco de doença.

Quando olha para os próximos anos, Diogo Barardo imagina uma medicina muito mais personalizada. Mais do que uma revolução tecnológica, prevê uma mudança na forma como passamos a acompanhar a nossa saúde. Em vez de nos guiarmos apenas pela idade cronológica, poderemos conhecer a idade biológica de cada órgão através de uma simples análise ao sangue. “Vamos deixar de perguntar ‘quantos anos tenho’ e começar a perguntar ‘quantos anos tem o meu fígado'”.

É precisamente aqui que a inteligência artificial pode fazer a diferença. Ao permitir uma análise mais detalhada e personalizada da saúde de cada indivíduo, abre vários caminhos, inclusive para uma medicina mais preventiva, capaz de identificar riscos antes de uma doença se manifestar.

No meio de tantas promessas de fórmulas milagrosas, Diogo Barardo insiste na importância da evidência científica. Nas suas palavras, “não há atalhos farmacológicos para o envelhecimento, só ciência paciente, e muita gente a vender pressa.”

Banner SuperToast ai

Subscreva o podcast ⁠Supertoast.ai 100% gerado por Inteligência artificial