O futuro da agricultura

elisajoharkness

Artigo de Elisa Jo Harkness, content strategist na FABERNOVEL INNOVATE US
Artigos originais (em inglês): “The Future of Agriculture, Part One: hardware, iot and big data ” e “The Future of Agriculture, Part Two: software, disintermediation and the sharing economy

 

O rosto da agricultura está a mudar mais rápido do que alguma vez foi visto. Com o surgimento da plantação de precisão, automatização e práticas orientadas por dados recolhidos por sensores, a indústria agrícola está a preparar-se para o seu próximo desafio: conseguir aumentar em 70% as receitas até 2050, a fim de alimentar uma população crescente. De sensores inteligentes a seguros relacionados com fenómenos meteorológicos, de imagens por satélite a robôs, de gestão de software a drones, as quintas nos Estados Unidos estão a passar por uma revolução. O ecossistema empreendedor AgTech está mais dinâmico e ambicioso do que nunca e o capital de risco está a alimentar o crescimento destes novos players. Numa indústria conhecida pelos seus elevados requisitos de capital e margens baixas, a inovação é a chave tanto para o sucesso como para a sustentabilidade. Como podemos otimizar o uso da água? Como podemos garantir que é colocada a quantidade certa de adubo no lugar certo? Como podemos determinar o ponto ótimo atempadamente para recolher a colheita?

Os empreendedores estão a trazer novas respostas a estas questões difíceis, não só com a explosão de hardware, mas também de dados e serviços para a agricultura. No meio de todo este ruído positivo e talento, dois grandes – e algo contraditórios – desafios corroboram a indústria agrícola: aumentar receitas e ao mesmo tempo assegurar a sustentabilidade.

Hardware & IoT

O hardware agrícola está a passar por uma revolução à medida que se torna, cada vez mais, “alimentado” por dados. Os drones são usados para a otimização de fertilizantes, pesticidas e herbicidas. Através da junção entre inteligência artificial e tecnologia visual e hiperespectral, a PrecisionHawk espera revolucionar a maneira como os agricultores avaliam a saúde das plantas, distribuem água, detetam ervas daninhas, monitorizam as estações e fazem a vigilância.

A inteligência artificial também está a ser utilizada no terreno. Máquinas inteligentes começaram a incluir visão computacional e capacidades de machine-learning. A Blue River Technology, financiada pela empresa de capital de risco Innovation Endeavors, desenvolveu o LettuceBot, uma máquina que se coneta a um trator tradicional e que pode executar algoritmos em 10 milhões de imagens para identificar uma erva daninha e pulverizá-la, para que a erva seja desagregada. A empresa fornece, assim, alta produtividade, alto rendimento, fenotipagem com base no terreno, controlo preciso de ervas daninhas para baixar a intensidade química de fertilizantes, como uma alternativa sustentável para GMOs.

As máquinas inteligentes estão no coração de uma inovação muito recente que se está a tornar cada vez mais comum tanto nos EUA como na Europa: plantação de precisão. A empresa Precision Planting, que tem uma vasta rede de concessionárias, fornece uma gama completa de soluções para plantação precisa, desde hardware a software. Um exemplo é a solução “delta force”, um sistema de plantação de peso adaptável que permite plantar sementes em profundidades ideais. Outra maneira de reunir e usar dados no terreno é através da dispersão de sensores. Isto pode ser usado em diversas aplicações e a monitorização da qualidade do solo é uma delas. A FarmX é uma startup que fornece uma solução acessível com sondas de alta qualidade, que podem ser instaladas no terreno para monitorizar níveis de humidade. Ao saberem mais sobre os níveis de humidade do solo, os agricultores podem economizar até 30% de água. Outra empresa que trabalha na monitorização da humidade do solo é a Digital Spring.

Big Data

Enquanto muitas empresas estão a tirar proveito do poder do Big Data, algumas empresas e iniciativas fazem do Big Data o seu foco central. Há dez anos, um ex-funcionário da Google decidiu lançar uma empresa, alavancando dados meteorológicos para produzir produtos para agricultores. A empresa tornou-se na Climate Corporation, que foi adquirida pela Monsanto, em 2013, por 930 milhões de dólares. A Climate Corporation oferece um software de gestão de tomada de decisão agrícola. O pacote ClimatePro oferece uma aplicação para a monitorização da saúde da planta (com base em imagens de satélite, da infraestrutura de satélite RapidEye do seu parceiro BlackBridge) e rastreamento do nível de nitrato, para a otimização do uso de fertilizantes.

Embora o espaço do Big Data pareça ocupado por grandes players, alguns mais pequenos têm surgido. A MavrX, lançada em 2012, introduziu recentemente a MarvrX Scout, uma plataforma baseada na sua rede de aviões, VANTs e satélites, que são capazes de identificar colheitas e medidas de desempenho e aplicar o Índice de Vegetação por Diferença Normalizada. A MavrX tem como objetivo fornecer aos agricultores de todo o mundo dados acionáveis para maximizar o rendimento.

Software, desintermediação e economia da partilha 

O software torna a vida dos agricultores mais fácil e otimiza as decisões agrícolas. Devido ao interesse das empresas de venture capital em aplicações AgTech nos últimos 5 anos, muitas startups lançaram produtos baseados em software para ajudar os agricultores a otimizar a gestão agrícola. A Granular, separada da Solum quando esta foi adquirida pela Climate Corporation, sedeada em São Francisco, fornece ferramentas de modelagem de crescimento, rastreamento de inventário e monitorização de lucro/custo. Os agricultores podem usar a plataforma para criar relatórios para os proprietários das terras, seguradoras, e parceiros de crédito. A Farmeron, outra startup no campo de gestão agrícola, tem uma abordagem mais especializada e focada na indústria de lacticínios. Desde o seu lançamento, em 2012, já arrecadou 4 milhões de dólares com a sua forte proposta de valor: o “Google analytics para a exploração de lacticínios”. O produto da Farmeron fornece a monitorização da qualidade do leite, recomendações de alimentação/fertilização/saúde e, até mesmo, apoio contabilístico. O produto plug-and-play da Farmeron tem uma baixa barreira à entrada, tornando-os bem posicionados para capturar um vasto mercado e mal servido.

A gestão agrícola não é a única oportunidade de software agrícola. Para além de startups cujas ferramentas são complementadas por componentes de hardware, como sensores de humidade, ou focadas no processamento de big data, existem várias startups mais especializadas. A FarmLogs oferece imagem por satélite para reconhecimento de mudança, queda de chuva, acumulação de calor, mapas do solo específicos de determinado terreno, importação de dados relativos à produção para visualização, simulação de inputs e análise de fase de crescimento. A empresa captou mais de 10 milhões de dólares em venture capital, tem escritórios em São Francisco e no Michigan, e as suas soluções têm sido adotadas por 50 mil agricultores em todos os 50 estados norte-americano, representando 12 mil milhões de dólares em colheitas sob gestão. Posto isto, não é surpresa nenhuma que a sua quota de mercado tenha disparado de 5% para 15% dos agricultores nos Estados Unidos no primeiro semestre de 2015. Já a Fruition Sciences tem disponibilizado uma ferramenta de decisão online para enólogos e viticultores que desejam otimizar a gestão de vinhas e melhorar a qualidade do vinho e de produção. Com os dados em tempo real, análises avançadas e ferramentas de decisão, o seu produto pode ter um impacto tremendo na maneira como se tomam decisões, desde a Califórnia à Europa, sobre as vinhas.

A economia da partilha é apropriada tanto para explorações agrícolas como para cidades

As práticas de partilha começaram a surgir na paisagem agrícola dos EUA. Tivemos o prazer de receber na incubadora da FABERNOVEL em São Francisco  – PARISOMA – várias startups que trabalham do lado da distribuição da cadeia alimentar.

Quando prestamos atenção não só aos hábitos do consumidor, mas à fonte da nossa alimentação, é com prazer que acolhemos startups que trabalham em soluções de distribuição. A GoodEggs, que recentemente voltou a concentrar as suas atividades em São Francisco, é uma plataforma que permite aos consumidores comprar diretamente aos produtores. A economia da informação tem ajudado a incentivar o interesse das áreas urbanas pelo mundo agrícola. De plataformas didáticas, como a LocalFoodlabs, a empresas de agricultura urbana, como a Farmscape, novas práticas têm surgido à medida que a conscientização tem crescido nas áreas urbanas.

A economia da partilha também se propagou para a agricultura, com o surgimento de redes de partilha de equipamento regional. A Maine Farmland Trust lançou uma iniciativa chamada “Shared-used Farm Equipment”, na qual os agricultores podem pagar uma taxa anual de 100 dólares e ter acesso a diferentes peças de equipamento com copropriedade. O mesmo princípio tem sido aplicado a novos tipos de equipamento. Uma empresa social baseada em São Francisco chamada Calso está a adotar uma nova abordagem para os drones: construíram um novo modelo (chamado drones4good), no qual os veteranos desempregados aprendem a voar VANTs (veículos aéreos não tripulados), pelo que os agricultores podem obter uma visão on-demand do céu e métricas sobre a quantidade da água nos seus terrenos. Este é um bom exemplo da fusão útil entre tecnologia e práticas de partilha, especialmente num local onde a seca é tão intensa, como na Califórnia.

Um dos projetos mais promissores (e provavelmente menos óbvios) na área das práticas de partilha para o espaço agrícola é a Farmers Business Network, uma plataforma para identificar boas práticas através da recolha de dados dos agricultores e construção de modelos. A empresa arrecadou 15 milhões de dólares da KPCB e da Google Ventures. O seu produto fornece uma plataforma de partilha de dados “agricultor-para-agricultor”, que agrega e normaliza dados de todo o país provenientes de equipamento conectado e de dados externos, como dados meteorológicos e condições do solo. Os dados agregados podem vir de 35 diferentes tipos de software agrícola (já presentes na cabine do trator do agricultor). Ao partilhar estes dados, os agricultores podem descobrir boas práticas no que diz respeito a fertilizantes, tipos de sementes e inúmeras outras coisas.

Bem-vindos ao futuro da Agricultura!