Carsten Breitfeld (Byton): “O futuro da mobilidade vai ser definido na China”

A Byton é um fabricante chinês que desenvolveu um automóvel 100% elétrico, conectado e centrado no utilizador. O primeiro automóvel da empresa vai ser lançado em 2019 na China e chega aos EUA e Europa em 2020.

Mais do que um fabricante, este é um novo player nos serviços de mobilidade. Em entrevista ao SuperToast, Carsten Breitfeld, CEO e co-fundador da Byton, desconstruiu a visão da empresa para se tornar um dos líderes da nova indústria da mobilidade.

 

De que forma a Byton cria diferenciação no mercado automóvel?

O nosso automóvel não é apenas um elétrico. Assemelha-se mais a um dispositivo inteligente sobre rodas. Toda a marca é centrada na experiência do utilizador: no automóvel tem ecrãs de grande dimensão no interior, fornece conectividade a alta velocidade e todo um ecossistema inteligente que, tipicamente, temos num smartphone ou num tablet.

Com base nisto, estamos a criar diferentes modelos de negócio, não vamos apenas vender automóveis, vamos vender funcionalidade digital ao consumidor e, no final do dia, vamos tornar-nos prestadores de serviços de mobilidade partilhada.

Como é que pretendem transformar a experiência?

Hoje, as pessoas passam horas dentro dos automóveis em cidades como Pequim, Xangai e Los Angeles. A maior parte do tempo é perdido, porque estão ao volante e presos no trânsito.

Na Era dos automóveis autoguiados, o software vai assumir o controlo do automóvel e nós queremos fornecer aquilo que chamamos de “tempo agradável” em viagem. As pessoas devem apreciar o tempo no automóvel, o que significa que devemos oferecer-lhes um novo tipo de experiência ligada ao espaço e à flexibilidade com assentos rotativos, por exemplo, que se adaptam a uma posição confortável.

Ao dia de hoje, as pessoas utilizam dispositivos para entretenimento, para trabalhar, para fazer compras, para monitorizar a saúde e é esse ecossistema que vamos disponibilizar no nosso automóvel, através de uma interface muito fácil de utilizar.

Pode dar alguns exemplos deste foco no utilizador?

Os nossos automóveis partem do interior para o exterior e do utilizador para a tecnologia. Foi algo que adaptamos da indústria da Internet. Um fabricante tradicional foca-se no produto: na engenharia, na comercialização durante sete anos e, depois, no desenvolvimento de um novo automóvel.

A Byton, por outro lado, é uma adaptação da eletrónica de consumo, vendemos um hardware e de 4 em 4 ou de 6 em 6 semanas fornecemos atualizações de software que oferecem novas funcionalidades para ir ao encontro das expectativas dos utilizadores.

O futuro da mobilidade é multimodal e temos vindo a assistir a um crescimento dos serviços de micromobilidade. Como é que Byton se encaixa neste ecossistema?

A nossa marca chama-se Byton, mas a empresa-mãe chama-se Future Mobility Corporation, precisamente porque a mobilidade é muito mais do que automóveis. O automóvel vai continuar a ser central, mas há também soluções para a “última milha” como trotinetes e bicicletas elétricas e antevemos também que num futuro próximo venha a surgir também o transporte por drones.

Planeamos oferecer novos serviços como ride-sharing porque vender automóveis não é um modelo de negócio sexy. Pode ser mais interessante gerar receitas através da oferta de serviços de mobilidade.

Procurámos criar o produto certo, que se adapta ao utilizador e que oferece um verdadeiro sentimento de propriedade. Fazemo-lo através de software na cloud. Planeamos oferecer um serviço de ride-sharing semelhante à Uber ou à Didi, em que o automóvel reconhece o cliente e faz o download dos dados relativos às suas preferências para definir toda a configuração do automóvel. Esta é uma grande oportunidade de negócio.

Que outros serviços vão disponibilizar?

Vamos oferecer todos os standards no que toca a carregamento, manutenção e ligação do automóvel a restaurantes, locais para visitar, etc. Vamos montar todo o ecossistema que hoje é relevante para os dispositivos inteligentes.

E seguros?

Pode ser uma opção, mas é algo muito específico…

Está familiarizado com o ADN de um fabricante de automóveis tradicional, uma vez que foi vice-presidente do grupo BMW. Na sua opinião, estas empresas serão capazes de competir com empresas como a Byton? 

São empresas com um legado de 130 anos, o que significa que fizeram investimentos de milhões em tecnologias e que têm milhares de pessoas formadas para desenvolver, construir e vender automóveis com motores de combustão.

Centram-se na tecnologia, nos produtos e num modelo de negócio do passado, precisam de mudar os produtos. Já fizeram alguns esforços, mas a verdade é que para criar um automóvel inteligente são necessárias pessoas com background na eletrónica de consumo e Internet. Mudar toda a empresa para um novo modelo de negócio é ainda mais difícil, se não impossível, porque mudar o processo e o modelo de 1.000 ou 2.000 pessoas é um grande desafio.

É muito mais fácil para uma empresa nova, é possível investir nas tecnologias certas desde o início, é possível criar o modelo de negócio que se quer, fazer bem e não ter preocupações com o legado.

Estamos a assistir à emergência de novos players vindos dos EUA e da China, como a Tesla ou a Faraday Future. Na sua opinião, os próximos líderes da indústria vão ser destes países?

Não tenho dúvidas que o futuro da mobilidade vai ser definido na China porque estão a ser reunidas condições para isso. É um mercado gigante com 30 milhões de automóveis todos os anos. A China está a avançar a alta velocidade, um grande número de investidores está a investir em novas empresas e o governo tem um plano concreto. O governo define a política, a visão e executa.

Nem todos os players vão ser provenientes da China, mas os mais fortes sim e o objetivo da Byton é liderar esta nova indústria da mobilidade.

Quais são os próximos passos?

Estamos a tentar ser modestos. Estamos muito concentrados em concretizar o plano e lançar o nosso primeiro produto no final do próximo ano, na China. O mercado chinês vai ser o mais importante. Em meados de 2020, vamos entrar nos EUA e na Europa.

Temos algumas ideias sobre o que pode vir a seguir, mas um dos grandes erros que se pode fazer enquanto startup é tentar fazer demasiado ao mesmo tempo. É importante o foco no lançamento do produto e é isso que estamos a fazer.

Estão a avaliar a entrada em bolsa?

Acabámos de captar investimento numa ronda de Série B. Estamos a trabalhar para captar um novo investimento numa ronda de Série C. Obviamente, a entrada em bolsa é uma opção interessante para o futuro para captar investimento, uma vez que a empresa exige grande investimento de capital, e para a expansão. Por enquanto, ainda não temos um plano concreto.

Qual é a valorização atual da Byton?

Aproximadamente, 2,2 mil milhões de dólares.


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