Por detrás de um grande produto ou serviço digital estão as API

Bem-vindo à nossa série Views, onde analisamos um princípio fundamental da nova economia e como está a ser aplicado na prática por empresas. Esta edição é dedicada às API (Interface de Programação de Aplicações), que são a pedra angular que está por detrás dos grandes produtos e serviços digitais.

As API são invisíveis para quem utiliza serviços digitais. No entanto, são a pedra angular do sucesso de muitos projetos e empresas, tais como a Super App chinesa WeChat, o Google Maps, o Uber Eats, ou a Amazon Web Services.

As API são um protocolo de comunicação entre dois serviços digitais, ou seja, permitem que duas aplicações enviem informação uma à outra e a utilizem. A principal vantagem deste protocolo de comunicação é que facilita a integração de um serviço digital dentro de outro serviço digital. Em média, uma empresa de SaaS (Software-as-a-service) utiliza uma mediana de 15 integrações de produtos.

Por exemplo, quando um utilizador reserva uma viagem na Uber, a aplicação calcula e apresenta o tempo estimado de viagem. O cálculo é feito através de uma API que recorre aos dados de tráfego do Google Maps. É como se a Uber pedisse ao Google para calcular o tempo estimado de viagem e para mostrar a resposta ao utilizador. Isto permite que o cliente tenha acesso a esta informação sem sair da aplicação da Uber.

As API não são tão recentes como parecem (o termo foi usado pela primeira vez em 1968), mas a sua popularização acelerou-se nos anos 2000, na era da Internet e das aplicações móveis. A pandemia acelerou a digitalização das empresas e tem sido um catalisador para a utilização das API: mais de 2 mil milhões de dólares foram investidos em empresas de API a nível mundial em 2020, em comparação com 500 milhões de dólares em 2017.

Quando falamos das API e das empresas que as desenvolvem, existem duas potenciais estratégias, radicalmente diferentes. Por um lado, algumas API são desenvolvidas “como uma funcionalidade adicional que permite a uma empresa B2C estender o império de um produto existente”, explica Romain Huet, Head of Developer Relations na Stripe (uma plataforma API especializada em pagamentos). Neste caso, um microserviço único é desenvolvido internamente e depois oferecido aos clientes programadores. Por exemplo, um serviço de cálculo de seguros ou de expedição que pode ser integrado num site de e-commerce.

Por outro lado, cada vez mais empresas vão mais longe e concentram-se numa estratégia API-first: oferecem conjuntos de ferramentas multi-serviços que permitem aos seus clientes desenvolver uma aplicação ou um site muito rapidamente. Estas empresas API-first fornecem a infraestrutura básica para todos os seus micro-serviços, que comunicam entre si. Desta forma, ”os programadores (clientes) já não precisam de programar tudo do zero e podem concentrar-se no core do produto que estão a desenvolver”, diz Romain Huet. Com estas “peças de Lego”, as empresas API-first asseguram aos seus clientes a evolução, resiliência, escalabilidade e modularidade da sua aplicação ou site. De um ponto de vista macroeconómico, reduzem o custo dos MVP (Minimum Viable Products) e as barreiras à entrada de novas startups.

O sucesso da Stripe baseia-se numa estratégia API-first

A Stripe é uma fintech americana B2B que permite aos seus clientes receber pagamentos online através de API. Quando foi fundada em 2010, a empresa identificou uma necessidade entre os programadores de aplicações móveis para serviços de pagamento. Atualmente, serve milhões de empresas de todas as dimensões, desde startups a grandes empresas, e oferece uma variedade crescente de serviços: pagamentos online, em terminais físicos de pagamento, gestão de subscrições, faturas online, criação de cartões virtuais e físicos, gestão de fraudes, ou até a possibilidade de fazer doações a projetos que promovem a sustentabilidade. Em troca, os clientes pagam uma comissão sobre cada transacção efetuada através da Stripe.

A Stripe diferencia-se de duas formas. Por um lado, construiu uma oferta e um percurso do utilizador centrado nas expectativas dos programadores. O site da Stripe tem uma seção dedicada aos programadores, que lhes dá acesso a informações claras sobre o funcionamento da API, exemplos de códigos e aplicações, guias de utilizador, etc. Por outro lado, a Stripe está empenhada em assegurar a retrocompatibilidade da sua API, algo que parece trivial, mas que é essencial. Isto porque uma API que evolui sem se manter compatível com as linhas iniciais de código das suas empresas clientes, condena-as a esforços tremendos de adaptação. Esta estratégia parece estar a dar os frutos: a Stripe tem uma quota de 19% do mercado global de processamento de pagamentos (atrás do PayPal com 54%) e foi avaliada em 115 mil milhões de dólares.

As API não são apenas para o mundo das startups e do digital

A “economia de API” em que novos players nativos digitais trazem valor aos programadores de outras empresas digitais ganhou tração, mas não nos podemos esquecer que as API não estão apenas ligadas aos gigantes digitais ou a startups.

O setor bancário é um exemplo desta porosidade para com os setores tradicionais: a diretiva europeia PSD2, que entrou em vigor em 2018, exige que os bancos sediados na UE passem a abrir a atividade bancária, expondo os seus serviços e dados através de API. O objetivo é  que os parceiros, fintechs ou até mesmo concorrentes, possam oferecer serviços de valor acrescentado aos seus clientes. Este impulso regulamentar permitirá às API de serviços de investimento (Yomoni, Cashbee, eToro) aceder às API dos agregadores de contas (Bankin, Tink, Plaid), que estão eles próprios ligados à API do banco, permitindo assim ao utilizador de serviços de investimentos otimizar diretamente a sua carteira.

Outros setores estão interessados em APIs não por razões regulamentares, mas por uma questão de disrupção ou de interoperabilidade. É o caso da plataforma Skywise, desenvolvida pela Airbus. Na aviação, os dados críticos de voo e operacionais são frequentemente fechados em silos. Como fornecedor da maioria das companhias aéreas, a Airbus quis participar na digitalização do seu ecossistema e lançou, em parceria com a Palantir, uma plataforma de dados baseada em API para ajudar as companhias aéreas a reduzir os problemas de manutenção e evitar atrasos técnicos. A plataforma inclui 9.000 aeronaves, operadas por 130 companhias aéreas, e é acedida por mais de 17.000 utilizadores únicos todos os meses.

Tornar-se API-first requer grandes mudanças organizacionais

Tornar uma empresa API-first pode reduzir drasticamente os custos de desenvolvimento e o tempo de entrada no mercado de um novo produto ou serviço digital. Contudo, implica também uma grande transformação na organização interna, tanto em termos da organização da equipa como do lugar que é dado aos programadores dentro da empresa, o que pode ser complexo de implementar.

Por um lado, tradicionalmente, as equipas de desenvolvimento trabalham a partir de um conjunto de especificações quando desenvolvem uma aplicação. Uma mudança para uma estratégia API-first requer a criação de equipas multidisciplinares, centradas em torno de serviços ou das API. Esta mudança de paradigma resulta numa mudança estrutural nos processos e responsabilidades organizacionais dentro da empresa, o que impacta a pirâmide de gestão. Com as API disponíveis internamente, estas equipas centradas num serviço ou numa API podem utilizar livremente o trabalho de outras equipas para desenvolver e evoluir o seu produto de forma independente. É este o fim das especificações para muitos deles? O caso da Amazon reforça a necessidade de adaptar a organização das equipas: em 2002, Jeff Bezos decretou que todas as equipas de produtos deveriam expor os seus dados e funcionalidades através das API, de forma a promover a autonomia e a agilidade das equipas. É evidente que esta mudança para uma estratégia API-first torna a empresa mais ágil e autónoma: cada projeto ou ideia que emerge pode contar com o trabalho do resto das equipas para acelerar ou apoiar o seu desenvolvimento.

Por outro lado, os programadores de uma organização API-first deixam de estar em “funções de apoio” e tornam-se “equipas de negócios” por direito próprio. O seu objetivo já não é apenas desenvolver o melhor produto (por exemplo, a plataforma de seguros com o melhor desempenho no mercado), mas também e sobretudo assegurar que a API é utilizada por um número máximo de programadores de outras empresas (o serviço de seguros é utilizado por um número máximo de programadores que trabalham em plataformas de e-commerce de outras empresas). Esta mudança organizacional implica dar aos programadores internos os meios para acompanhar a comunidade de programadores parceiros e co-construir com eles um produto que se adapte às suas expectativas. Esta mudança na posição das equipas de desenvolvimento transforma os programadores em portadores de conhecimento capazes de apoiar e acelerar o modelo de negócio da empresa.

A reter

Por: Raphael Khalifa, IT Transformation Director na Fabernovel

  • Para além de ser uma estratégia de redesenho da arquitectura técnica da empresa, a estratégia API-first é uma verdadeira transformação empresarial na forma como é distribuído o valor criado pelas equipas.
  • Esta nova forma de ver a proposta de valor da empresa implica uma mudança profunda, tanto internamente, na organização, processos e abordagem às equipas técnicas, como externamente, nos produtos oferecidos pela empresa.
  • Qualquer empresa que adote uma estratégia API-first torna-se uma Empresa de Software, e as suas equipas de TI passam de uma função de apoio empresarial para um diferenciador estratégico, fornecendo valor.

Estudo Fabernovel recomendado: 6 motivos pelos quais as API´s estão a mudar os negócios

 


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