Um engenheiro da Google foi suspenso, na semana passada, depois de ter afirmado que a Inteligência Artificial (I.A.) em que estava a trabalhar se tinha tornado consciente e de ter publicado conversas que teve com o LaMDA (Modelo Linguístico para Aplicações de Diálogo). Nestas conversas, o chatbot fala sobre a sua interpretação do livro “Les Misérables” de Victor Hugo, da sua vontade de aprender com Dalai Lama e dos seus maiores medos (ser desligado, que considera como a sua morte), entre várias outras coisas.

Não, não se preocupe, é muito pouco provável que LaMDA tenha consciência. Se programar um computador para imitar o diálogo humano, é normal que se expresse como um ser humano.

No entanto, esta experiência mostra, em primeiro lugar, os enormes progressos que estão a ser feitos nas tecnologias de I.A. e, em segundo lugar, que a inteligência artificial não precisa necessariamente de ser senciente para que os humanos possam interagir profundamente com ela e ter experiências mais emocionais.

Por isso, deixo-lhe como recomendações um filme e um episódio de uma série.

A primeira é o filme Her (2013), de Spike Jonze. Neste filme, Theodore (Joaquin Phoenix) desenvolve uma relação romântica com a sua assistente virtual. Como no caso de LaMDA, esta assistente virtual (Scarlett Johansson) parece compreender Theodore e é capaz de comunicar eficazmente com ele.

A segunda recomendação é o primeiro episódio da segunda temporada da série Black Mirror. No episódio Be Right Back, Martha (Hayley Atwell) substitui o seu recentemente falecido marido Ash (Domnhall Gleason) por um serviço online que se baseia no histórico dos media sociais e nas comunicações passadas dele para criar um Ash virtual. Este software acaba por ser integrado num corpo artificial de Ash. Numa das cenas mais pungentes do episódio, Martha fica chateada porque a I.A. parte depois de uma discussão, porque ela lhe diz para o fazer, e ela sabe que o verdadeiro Ash não o teria feito.

Estas duas obras são reflexões fascinantes sobre a natureza da consciência e mostram que não precisamos necessariamente esperar por uma I.A. consciente para repensar como interagimos com ela.