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Design especulativo: o novo caminho para os designers na era da AI

Qual é o lugar do designer num mundo onde algoritmos geram imagens, textos e interfaces em segundos? Se muitos ainda se colocam esta questão, a resposta ja tinha sido antecipada em 2013 pelos designers e professores Anthony Dunne e Fiona Raby quando escreveram o livro Speculative Everything: Design, Fiction and Social Dreaming.

Não se trata apenas de um livro sobre design, é um convite à reflexão sobre o verdadeiro poder do design enquanto disciplina: imaginar mundos possíveis, provocar reflexão e abrir espaço para o debate social.

A inteligência artificial “brilha” em contextos onde o problema já está definido, otimiza processos, propõe soluções rápidas e eficientes ou gera padrões infinitos de imagens. Dunne e Raby descrevem este papel mais funcional (da AI) como “design afirmativo”: útil, pragmático, orientado para respostas. Mas a essência do design especulativo é outra. É um território que não procura dar respostas imediatas, mas antes colocar questões, criar narrativas alternativas e expor dilemas éticos. Não se trata de tornar a tecnologia mais apelativa ou consumível, mas de nos confrontar com possibilidades: como poderia o mundo ser diferente?

É aqui que a AI encontra os seus limites. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, imaginar futuros radicalmente novos, dar corpo a sonhos coletivos ou questionar sistemas de valores continua a ser um ato profundamente humano.

Dunne e Raby lembram-nos que a imaginação não é puro devaneio, mas sim uma ferramenta crítica que permite avaliar alternativas, pensar eticamente e desafiar o status quo. O design especulativo funciona como um “catalisador para o sonho social”, em que ideias não servem apenas para resolver problemas, mas para criar novos cenários de debate e reflexão.

Enquanto a AI pode ser usada para criar nudges* e moldar comportamentos de forma quase invisível, o design especulativo procura o oposto: desbloquear a imaginação das pessoas, ajudá-las a construir bússolas, em vez de mapas fixos, e dar-lhes várias direções com liberdade de escolha. O futuro do design na era da AI não está em competir com a velocidade ou a eficiência das máquinas, mas sim em assumir aquilo que a AI não consegue replicar: a imaginação como exercício crítico e ético, a capacidade de criar narrativas que questionam o óbvio e a coragem de propor futuros desejáveis e não apenas possíveis.

Hoje, talvez seja esse, o maior papel do designer: ser guardião da imaginação, lembrando que, se as nossas ideias não mudarem, a realidade também não mudará. Para quem sente que a AI pode estar a roubar espaço à criatividade, Speculative Everything é leitura obrigatória. Uma obra que inspira e desafia, e que nos recorda que o design não existe apenas para resolver problemas, mas também para nos ajudar a sonhar coletivamente em novos futuros.

*Nudges

No design de interação, um nudge é uma técnica para orientar o comportamento das pessoas sem impor regras diretas. Ou seja, em vez de obrigar alguém a agir de determinada forma, cria-se um ambiente ou uma escolha estruturada que leva as pessoas a optar “naturalmente” por aquilo que se pretende. A chamada arquitectura da escolha.

Pode ler aqui sobre a arquitetura da escolha.

Vanda Bica

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