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Nobel: A destruição criativa da inovação

Podemos não ter essa consciência, mas desde a era industrial, o mundo tem vindo a testemunhar um crescimento económico sustentado, tirando um vasto número de pessoas da pobreza, trazendo conforto, mais anos de vida, enfim, as bases da prosperidade moderna.

Os laureados deste ano do Prémio Nobel da economia demonstram como a inovação fornece o ímpeto necessário para o progresso contínuo. Mas vamos por partes…

Primeira parte: perceber as engrenagens do progresso tecnológico.

A primeira parte do prémio foi atribuída a Joel Mokyr, professor universitário nos EUA e em Israel, por ter identificado os pré-requisitos para o crescimento sustentado através do progresso tecnológico. Baseando-se em fontes históricas, identifica como o crescimento sustentado se tornou a nova norma. E aqui, entra a inovação, que gera inovação, que gera inovação… Um processo autogerador porque passou a ser um processo científico baseado em dados, o que não acontecia antes da revolução industrial.

Razão pela qual Joel Mokyr afirma que o principal motor do “grande enriquecimento” da humanidade é o crescimento do conhecimento útil.

Numa palestra da American Philosophical Society, que deixo aqui como recomendação, Mokyr define o conhecimento útil com dois componentes: conhecimento com propósito (O quê) e conhecimento prescritivo (Como), sendo que a interação entre as classes intelectuais (les savants) e os fabricantes (les fabricants) foi crucial para o progresso.

Segunda parte: matar o nosso próprio negócio, antes que alguém o faça.

Philippe Aghion e Peter Howitt, também professores universitários, vencedores da outra metade do Prémio Nobel debruçaram-se sobre a teoria do crescimento sustentado através da destruição criativa.

Primeiro, explicando o ciclo contínuo (e cada vez mais acelerado) do avanço da tecnologia, com novos produtos e métodos de produção a substituírem os antigos. Depois, explicando que a inovação é criativa porque representa algo novo, mas é também destrutiva porque as empresas que vendem produtos mais antigos perdem terreno, e a tecnologia torna-se obsoleta e ultrapassada.

Numa Talk na universidade CIEB de Basel, Philippe Aghion explica a grande contradição no coração do crescimento: para haver inovação é preciso investimento (tipicamente vindo de monopólios temporários), mas devido à natureza destrutiva da inovação, os incumbentes ou inovadores de ontem, são normalmente mais tentados a investir para impedir inovações subsequentes do que investir na inovação que pode destruir o seu próprio negócio.

E agora com a Inteligência Artificial, este ciclo inverte-se?

Philippe Aghion encara a AI como uma fantástica oportunidade de crescimento porque automatiza tarefas “aborrecidas”, acelera a investigação e a inovação, ajudando a sociedade a crescer mais rápido e acelerando as empresas.

No entanto, reconhece que existem grandes desafios: o medo existencial, que sempre existiu no homem em todas as inovações, e que impede de encarar a inteligência artificial como um poder, como algo “friendly”. E também aproveitar este poder de destruição para traçar um novo rumo de prosperidade, mais verde e mais inclusivo.

Os laureados alertam que a destruição criativa gera sempre conflitos que devem ser geridos de forma construtiva. Caso contrário, a inovação pode ser bloqueada por empresas estabelecidas e grupos de interesse que arriscam ser muito prejudicados.

Há certos temas sobre os quais achamos que já pensámos o suficiente, mas nem sempre com a devida atenção ou profundidade. Foi o que senti quando fui investigar mais sobre os vencedores do Prémio Nobel da economia, e não quiz deixar de partilhar. Por muito óbvia que estas teorias possam parecer, na prática são raramente fáceis as suas aplicações e estamos claramente a atravessar uma zona de turbulência.

Sandra Lucas Ribeiro

Sandra é Co-founder e Managing Partner da Instinct desde a sua criação em 2012, tendo sido COO durante os 10 anos que a Instinct representou a Fabernovel em Portugal. Depois de 7 anos dedicados ao jornalismo, na rádio e na televisão, participou na criação de uma das primeiras agências digitais em Portugal em 1998, a Absolut System adquirida pelo grupo WPP passando a OgilvyInteractive onde foi durante 5 anos Diretora de Serviço ao Cliente. Ao longo da sua carreira passou ainda por várias agências, como a Partners, a Grey e a Strat. Apaixonada pelas ciências sociais, em particular pela revolução social provocada pelo digital e pelo impacto das novas tecnologias no comportamento humano e no mundo dos negócios. Formada em Psicologia (Université Paris 8), em Marketing Management (Católica Business School of Lisbon), Jornalismo (CENJOR) e em Luxury Brand Management (Executive Course - ISEG), tem-se dedicado nos últimos anos ao Human-Centered Design (IDEO.org) e ao estudo das emoções na experiência digital.

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