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Dr. Balsemão, muito obrigado pela memória das suas Memórias

Tudo o que foi dito e escrito sobre o Dr. Balsemão nos últimos dias mostra a sua verdadeira dimensão, em todos os quadrantes onde participou. Em todos estes quadrantes, sempre foi alguém à frente do seu tempo, um inovador.

Para mim, como, certamente, para muitos, o Dr. Balsemão sempre foi uma referência sobretudo pelo seu lado empreendedor e inovador nos media.

No ano passado (julgo que em abril), quando a sua filha Mónica me ligou a perguntar se era possível clonar a voz do seu pai para converter a sua autobiografia de 1.000 páginas, o entusiasmo foi imediato. Mas, confesso, tive receio por temer que a inteligência artificial não chegasse aos padrões de qualidade que o Dr. Balsemão exigiria. E por isso, respondi: “Sim, mas temos de testar para verificar a qualidade”.

Marcámos, então, a gravação da recolha da amostra áudio para dia 13 de maio de 2024 (coincidência, ou talvez não, dia de Nossa Senhora de Fátima), na Impresa, em Paço de Arcos.

Quando o Dr. Balsemão, na altura com 86 anos, chegou ao lobby da Impresa, foi muito simpático, como habitualmente, mas aparentemente frágil, caminhando devagar até ao estúdio, ou mais devagar do que eu tinha memória até então. Temi que esta fragilidade física se refletisse na voz.

Quando chegámos ao estúdio, a Joana Beleza já tinha tudo preparado com dois marcadores no livro. O Dr. Balsemão elogiou-a, dizendo que estava muito bonita, a Joana agradeceu e destacou que se tinha vestido de cor-de-laranja porque sabia que era a sua cor preferida, ao que ele respondeu com um sorriso: “Conhece-me bem…” .

Em estúdio, o Dr. Balsemão, a Mónica, a Joana, a Sandra e eu.

Quando tudo estava pronto, e o microfone se ligou e lê: “Ao entrar no novo milénio, a SIC continua a alargar a sua presença televisiva…” a sua voz, ou melhor, vozeirão, transmitia uma força interior que contrastava com a sua já fragilidade física. Senti um arrepio e percebi que tínhamos projeto. A magia do equalizador do João Amorim fez o resto.

O “teste do algodão” foi feito quando a Mónica o colocou a ouvir o primeiro teste já com a voz clonada, em que exclamou: “Eu não li isso, pois não?”, e isto foi o ok para avançarmos.

Seguiram-se meses de trabalho na conversão do texto das 1.000 páginas para áudio, com algumas palavras insuspeitas como “Belenenses” ou simples diminutivos de nomes de amigos e familiares a desafiar-nos para conseguirmos que a inteligência artificial reproduzisse o som corretamente.

Durante o projeto, percebemos a necessidade de uma segunda voz para os títulos, preferencialmente feminina. Desafio aceite pela Clara de Sousa, que apesar de ter um bom fôlego, também quis clonar a voz.

Em paralelo, procurávamos um patrocinador para viabilizar o projeto, que a Mónica conseguiu fechar em novembro, com a Teresa Lameiras, na altura diretora de marketing da VW.

23 de janeiro de 2025 foi a data marcada para o lançamento do podcast Memórias, com uma conferência sobre inteligência artificial realizada no lobby da Impresa.

Depois, de janeiro até julho, fomos avançando, capítulo a capítulo e com muito trabalho de “filigrana” com a inteligência artificial para ajustar pequenos detalhes. Só respiramos fundo a 11 de julho, com a publicação do último episódio – Conclusão: Deixar um Mundo um Pouco Melhor.

Pelo meio, em abril, recebemos uma bonita mensagem de áudio do Dr. Balsemão para o nosso grupo de trabalho: “Daqui fala o verdadeiro… estou-vos muito agradecido por este fantástico trabalho que vocês têm feito, e continuem, que não tarda muito terão mais podcasts meus, um grande abraço para todos.”

Mesmo para quem leu o livro, recomendo o podcast Memórias, porque ouvir a autobiografia com a sua própria voz (clonada) garante um nível de intimidade que o livro não permite.

Como dizia Steve Jobs, “só é possível juntar os pontos olhando para trás”. O livro e o podcast Memórias são o juntar dos pontos onde podemos perceber a verdadeira dimensão do Dr. Balsemão na transformação da nossa sociedade, que também foi um pai herói, como referiu o seu filho Francisco Pedro.

Para mim, e para a equipa da Instinct, foi um enorme privilégio participar neste inovador projeto, o último da vida profissional do Dr. Balsemão.

Em nome de toda a equipa da Instinct, deixo o nosso Muito Obrigado.