Hirokuni Genie Miyaji: “Daqui a 10 anos, quem saberá o que é virtual e o que é real?”

Por: Joachim Renaudin, Senior Project Analyst

 

Apresento-lhe o Liam. Um produtor musical a tempo inteiro e fã de basquetebol, com milhares de seguidores no Instagram. A questão é que… o Liam não existe. Foi criado por Hirokuni Genie Miyaji, fundador da agência 1Sec, que nesta entrevista nos explica a experiência de criar o primeiro influencer virtual masculino do Japão.

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Joachim Renaudin: Pode falar-nos um pouco sobre a agência 1Sec e de como surgiu a ideia de criar o Liam Nikuro?

Hirokuni: A nossa agência, a 1sec, é uma empresa de criação de humanos virtuais. Somos conhecidos principalmente por termos criado Liam Nikuro, o primeiro humano virtual masculino no Japão. A nossa intenção era que o Liam servisse de referência para mostrar às empresas aquilo que somos capazes de fazer. Entre o público em geral e as marcas, as pessoas não estão familiarizadas com este conceito. O nosso grande objetivo não é tentar popularizar o Liam, mas sim sensibilizar e entusiasmar as marcas para trabalharem connosco com os seus próprios humanos virtuais.

JR: E o Liam, quem é?

Hirokuni: O Liam é um jovem produtor musical que passa o seu tempo entre Tóquio e Los Angeles. No Instagram, partilha sobretudo a sua vida diária e publica fotos vestido com roupas de marcas de moda. Nas últimas semanas, tem estado bastante ocupado a produzir uma música nova e por isso não tem estado muito ativo no Instagram. Neste momento, está focado na música.

O Liam tem 15 mil seguidores. Está a sair-se muito bem a nível mundial, não apenas no Japão. Os humanos virtuais não têm fronteiras, podem chegar facilmente a todo o mundo.

Para além da colaboração com marcas, também criámos outro ser humano virtual, na verdade uma celebridade virtual. Chama-se Lewis e é inspirado numa celebridade japonesa, Mizushima Hiro, um ator e modelo. Criámos esta versão virtual e agora estamos a contar a história do seu alter ego virtual no Instagram. Estamos a levar a influência virtual a uma nova dimensão.

 

JR: Isso é fascinante, pode explicar o processo de criação e que conhecimentos especializados são necessários para criar um ser humano virtual?

Hirokuni: Em primeiro lugar, temos uma equipa de produção criativa que desenvolve a persona, definindo o seu perfil, os seus traços de personalidade, o tipo de conteúdos que vai partilhar. Quando se trata de uma marca, perguntamos obviamente ao cliente que tipo de persona quer, que valores deve encarnar, e depois inventamos uma história.

Uma vez decidido isto, entra a equipa de computer-generated image (CGI), que dá ao humano virtual uma aparência. Para o Liam Nikuro, entrevistámos mulheres jovens para saber quais são as suas personalidades favoritas. O Liam é, na verdade, uma combinação de dezenas de rostos, incluindo Justin Bieber ou do grupo k-pop BTS! Esta imagem gerada por computador acaba por se tornar a cara do Liam.

Por último, necessitamos de uma equipa criativa especializada no Instagram para apresentar ao mundo esta imagem gerada por computador e partilhar conteúdos com os seus seguidores.

JR: Como sente que o mercado está a reagir às tendências humanas virtuais?

Hirokuni: O que queremos fazer na [agência] 1sec é criar uma tendência, não necessariamente seguir o mercado. Hoje, penso que ainda estamos muito à frente do mercado, estamos a visar sobretudo a indústria da moda, uma vez que esta é mais madura e inovadora. Não tenho medo de que seja demasiado cedo. Sou um empresário, já introduzi novas ideias, já criei novos conceitos e já criei tendências. Acredito que as marcas estão sempre prontas para inovar e experimentar algo novo. Hoje, as marcas, os jornais e o público em geral estão muito curiosos sobre o ser humano virtual, como funciona uma empresa de produção humana virtual, temos muitos pedidos de entrevista. No entanto, um desafio fundamental será permanecer relevante e criar humanos virtuais para marcas que sejam interessantes a longo prazo e, portanto, valiosas do ponto de vista da marca.

JR: O que será o Liam daqui a 10 anos?

Hirokuni: Dez anos é um horizonte temporal muito longo. Dentro de dois anos, as coisas já serão realmente diferentes. Neste momento, o que fazemos são apenas imagens ou pequenos videoclipes no Instagram, mas em breve, vamos permitir ao Liam comunicar através de vídeos, em movimento, em tempo real. O nosso próximo objetivo é que o Liam incorpore Inteligência Artificial, para que seja capaz de ter conversas com pessoas reais. Neste momento, a sua aparência é virtual, mas queremos construir a sua personalidade mais profundamente, indo além de um simples enredo.

Daqui a dez anos, acredito que vão existir hologramas por todo o lado. O Liam é um produtor musical, se ele se tornar famoso, irá atuar em concertos em todo o mundo, como holograma. Hoje já temos estrelas pop virtuais como Hatsune Miku, que enchem salas de concertos, no Japão, mas também na Europa.

Está mesmo ao virar da esquina. Quando a inteligência artificial estiver madura, o facto de esta persona ou conta de Instagram ser “virtual” já nem sequer interessa, a linha entre ficção e realidade tornar-se-á cada vez mais ténue. Quem vai saber o que é virtual e o que é real? O que importa será a qualidade do conteúdo. O conteúdo é rei, como diz o ditado.

JR: Poderá o mercado de influência virtual, atualmente um nicho de mercado, tornar-se dominante e ultrapassar o mercado de influência?

Hirokuni: Não me parece que seja um ou outro. Um não vai tomar conta do outro. A influência virtual, hoje em dia, pode obviamente criar mais agitação, mas os influenciadores estão certamente aqui para ficar. Hoje em dia, temos um negócio de influência, queremos ter uma plataforma onde qualquer pessoa possa usar influência; seja virtual ou humana. Hoje, a influência virtual é um nicho de mercado para marcas high-end, mas no futuro acredito que as marcas do mercado de massas, como a Uniqlo ou a H&M, também dependerão dos humanos virtuais. Se pensarmos a longo prazo, há muitas formas de utilizar um ser humano virtual na indústria da moda. Acredito que os assistentes de vendas alimentados pela inteligência artificial vão emergir e com isso a necessidade de lhes dar uma personalidade, um sentimento, um toque natural para se relacionarem com o cliente irá tornar-se importante.

Hoje já temos robôs nas lojas SoftBank, no Japão, mas são bastante estúpidos. Se quiserem alguma vez tornar-se mainstream e criar uma grande experiência de retalho, vão precisar de mais do que apenas braços e uma inteligência artificial poderosa.

JR: Riccardo Tisci, director criativo da Burberry, disse que o Japão está 20 anos à frente do Ocidente no que diz respeito aos media virtuais e à moda. Vemos youtubers virtuais que têm milhões de visualizações, e alguns deles, como Hatsune Miku, até enchem os estádios no Ocidente. Acha que o Japão tem uma adoção mais fácil dos humanos virtuais?

Hirokuni: O Japão é um país muito especial, com uma cultura específica. Acredito firmemente que o povo japonês será capaz de se adaptar à inteligência artificial e aos robôs muito mais facilmente do que outros países, porque faz parte das nossas referências culturais. Quer seja em anime, em videojogos, ou em youtubers virtuais, estamos habituados a ver robôs. A maioria dos japoneses não tem medo de robôs ou está preocupado com a inteligência artificial, mas sim em vê-los como grandes tecnologias para resolver problemas.

No entanto, no tópico da inteligência artificial, o Japão está a ficar para trás. Os Estados Unidos e a China estão muito à frente. Para o nosso propósito, imagens geradas por computador, não é um problema porque hoje em dia a tecnologia é muito acessível no mercado, quase qualquer pessoa pode fazer uma imagem de um humano virtual. Fazer um vídeo em movimento de um ser humano virtual é outro nível. Muito do valor acrescentado e da diferenciação que queremos trazer reside não só a nível editorial e de conteúdo, mas também a nível técnico. E para esta parte, infelizmente, o Japão não está a abrir o caminho.Talvez a 1 sec e o Liam vão mudar o jogo.

Versão em inglês.


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