O paraíso da automatização ou a insaciável vontade de trabalhar?

Em 1930, John Maynard Keynes, provavelmente o mais conceituado economista do século XX, projetava um futuro em que o progresso tecnológico seria um “problema económico dentro de 100 anos. No artigo Economic Possibilities for our Grandchildren (Possibilidades Económicas para os nossos netos) antecipava uma semana de 15 horas de trabalho e uma oportunidade de nos concentrarmos nas artes e na cultura.

Embora o nível de vida médio tenha, sem dúvida, melhorado muito durante o último século, a realidade é que não trabalhamos menos. À medida que atravessamos a terceira revolução industrial, a ideia de que o progresso tecnológico pode tornar a labuta humana obsoleta continua a parecer longínqua e afastada da visão de Keynes.

Em 2013, num artigo académico de grande circulação, publicado por Carl Frey e Michael Osborne, professores da Universidade de Oxford, estimava-se que 47% das profissões nos EUA estavam em risco de desaparecer devido à automatização. O próprio Elon Musk da Tesla e da SpaceX, à conversa com Jack Ma da Alibaba, em 2019, reconhece que a Inteligência Artificial vai tornar muitos trabalhos inúteis, o que levou muita gente a aceitar a ideia de um futuro com desemprego causado por robôs. Alguns políticos até lançaram o debate sobre a necessidade de introduzir um Rendimento Básico Universal.

 

Quem rejeita essas conclusões é David Autor, professor de economia no MIT, que explica que já estivemos em situações semelhantes no passado e que a história demonstra que os empregos se tornaram, pelo contrário, mais abundantes. Numa Ted Talk, Autor aborda a invenção e introdução dos Multibancos, que levou na realidade a um aumento de colaboradores nos bancos. E porque é que isto acontece?

David Autor menciona dois fenómenos para explicar porque é que os empregos continuam a existir apesar do progresso tecnológico: “O-ring” e “Never Get Enough”.

O fenómeno O-ring
O-ring é o nome do pequeno anel de borracha que causou a queda da nave espacial Challenger em 1986 e ilustra a importância de qualquer elo de uma cadeia de valor, sendo aumentada com cada melhoramento de outros elos. Por outras palavras, o anel de borracha só se tornou tão crucial porque todos os outros aspectos da nave espacial eram perfeitos. Da mesma forma, a importância da atividade humana dentro de uma cadeia de valor irá aumentar à medida que o resto do processo for automatizado.

Never Get Enough
Outro fenómeno é o “Never Get Enough”, ou seja, o facto de que à medida que o nosso nível de vida melhora, encontramos sempre uma forma de querer outra coisa. Esta natureza insaciável da humanidade é o que nos leva a inventar sempre novas actividades. Isso explica a queda de 40% de empregos na agricultura nos EUA, há cem anos, para 2% hoje em dia (devido à automatização). Este fenómeno não causou o desemprego em massa, porque novos empregos foram inventados desde então, tais como publicitários, pilotos de aviões, empregados de fast-food e até TikToker…

O Ted Talk do David Autor mostra assim que, embora se percam empregos para a automatização, os que sobrevivem tornam-se mais valiosos, e, por outro lado, muitos novos empregos emergem em áreas anteriormente inexistentes. Isto não significa, contudo, que tudo esteja bem. Autor conclui a sua intervenção apontando para os perigos das competências entre empregos perdidos e ganhos não serem as mesmas, sendo importante estimular a conversão e a aquisição de novas competências dos colaboradores.

Author avatar
Oliver Dislich
O Oliver integra a agência de inovação Fabernovel em Portugal desde Setembro de 2021 como Business Analyst. Com formação inicial em Economia, trabalhou como assistente de pesquisa no Instituto Suiço de Economia Internacional e Aplicada (SIAW-HSG) e estagiou na Organização Mundial do Comércio em Genebra, apoiando o Diretor do Conselho. O Oliver é formado em Economia pela Universidade de São Galo, na Suíça.
We use cookies to give you the best experience.