Imagem vs fotografia. Há uma linha que separa
Com a atual disseminação da AI, especificamente da AI generativa, a fotografia sofreu um grande impacto. E é algo que devemos discutir.
Quando os smartphones se tornaram capazes de tirar fotografias dignas de outdoors, o mundo da fotografia — e principalmente a sua economia — mudou.
A fotografia como arte está hoje ao dispor de todos. Considero isto positivo. Comecei a tirar fotos com uma HP Photosmart point-and-shoot, e quando tive idade suficiente para ter um iPhone senti-me livre criativamente com o que ele oferecia.
A câmara do iPhone 3G não era ótima, mas havia aplicações que tornavam as fotografias boas o suficiente. Essas aplicações conferiam liberdade criativa. A questão que se coloca é: depois de editar essas fotografias, o resultado ainda é uma fotografia? Ou é uma nova imagem? Será importante distinguirmos uma fotografia de uma imagem? Talvez.
A fotografia pode ser uma forma de expressão. Por omissão, isso significa que cada um pode expandir a sua criatividade e criar algo novo através da fotografia. Torna-se um meio condutor.
Na minha perspetiva (bastante opinativa), uma fotografia deve representar a realidade. As câmaras são desenhadas para captar luz, transformar essa luz em informação digital e depois processar essa informação para replicar o que os nossos olhos e cérebro fazem com essa mesma luz.
Quando um fotógrafo ou artista manipula as suas fotografias — as suas capturas de luz digitalizada — têm de decidir qual o resultado que procuram. O objetivo dessa manipulação da luz é para criar uma fotografia ou uma imagem?
Mudar a vibrância ou a tonalidade de uma cor específica numa fotografia não é nada mais do que alterar a forma como o computador deve interpretar os comprimentos de onda dessa radiação. Tal como as pessoas que têm daltonismo, que não veem uma realidade alterada. Os seus olhos e cérebro apenas interpretam a realidade de forma diferente. Ou como diferentes tipos de películas de filme renderizam as cores de maneira diferente.
Editar e manipular elementos da fotografia
O “Smart Subject Removal” e “Content Aware Fill” não são ferramentas novas na sua essência. O Adobe Photoshop tem permitido que artistas apliquem estas técnicas há anos. Faz diferença que agora seja feito de forma automática? Não acho. No entanto, atualmente, é mais proeminente a utilização destas ferramentas. Qualquer pessoa pode substituir um céu, remover um transeunte ou remover uma mancha no rosto de alguém sem muito conhecimento ou expertise na ferramenta que está a utilizar.
Pode-se argumentar que, tal como a fotografia com smartphones libertou as pessoas para criarem mais fotografias, as ferramentas inteligentes alimentadas por AI generativa permitem que qualquer pessoa retoque fotografias em segundos.
A minha posição mantém-se: seja removendo manualmente um sujeito de uma fotografia ou utilizando uma ferramenta de AI generativa para alcançar o mesmo resultado, estamos a falar de uma nova imagem, não de uma fotografia. Isso já não é a realidade captada pela câmara. Isso já não é a luz captada pelo sensor da câmara. Criativamente falando, isso é aceitável. Os pintores não replicam a realidade exatamente como ela é; é sempre através de uma série de interpretações. E é por isso que o seu trabalho é valioso.
Quando as pessoas partilham as suas fotografias ou imagens, a transparência é fundamental.
Recentemente, vi uma imagem hipnotizante de um caiaque num rio sinuoso fotografado de cima. Na margem direita, havia árvores cheias de folhas ainda laranja do outono. Na margem esquerda, pinheiros cobertos de branco devido a uma recente queda de neve. A fotografia era inacreditável. Quando questionado sobre o seu processo para alcançar esta obra-prima, o fotógrafo — criador neste caso — mentiu descaradamente e não revelou que esta era uma imagem fortemente fabricada.
Agora que sei que não é uma fotografia, isso não torna a imagem menos bonita. Mas agora sei que não é algo real que alguém captou. É, no máximo, uma interpretação de uma cena real que alguém experienciou.
Esta nuance em diferenciar o que é real do que não é muda completamente a forma como devemos olhar para a arte.
Uma pintura digital não é menos valiosa do que uma fotografia digital, nem uma fotografia digital comparada a uma analógica.
O Instagram introduziu recentemente um badge com a frase “Criado com AI”, que está a falhar mais vezes do que deveria. As pessoas estão zangadas com isso, e com razão. Não vou afirmar que sei qual é a abordagem certa, mas se há algo que me ajuda a olhar para a fotografia com menos dúvidas são os metadados.
Ver qual foi a câmara, lente, e possivelmente software de edição utilizado para tirar aquela fotografia coloca-me nos sapatos do fotógrafo. Leva-me ao momento em que ele tirou a fotografia e permite-me ver o que ele viu naquele momento.
É por isso que a divulgação dos metadados para mim é importante. Não para alimentar discussões sobre sensores full-frame vs. cropped vs. formato médio, ou fotografias com pouco vs muito ruído, mas para promover a transparência no ato de partilhar.
Reconheço que vejo a fotografia como uma forma de captar e representar a realidade; muitas pessoas vêem-na de forma diferente.
O que devemos continuar a fazer é clarificar o que estamos a partilhar. Se fotografias ou imagens.
Obrigado por ler, e por favor partilhe a sua opinião comigo!
Disclosure: Estas são as minhas opiniões e não devem ser associadas a nenhum dos projetos para os quais contribuo.
